quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

José Saramago, Memorial do Convento

Memorial do Convento (1984), 8ª ed. Lisboa: Caminho.

 

O mais atrativo neste livro é a ironia muitas vezes presente, que se dirige ora à religião (principal alvo que ele raramente perdoa), ora à crítica social, ou ainda a outras áreas humanas. Curiosamente, quase sempre, com um olhar compreensivo sobre as pessoas, mesmo as mais poderosas ou más. Porque ele confere às personagens do povo uma dignidade e uma nobreza que retira aos fidalgos e aos homens do clero; apesar de estes últimos serem também abrangidos pela sua compaixão.

(233 e 242) Mas é nas personagens do povo que reside a sua preferência. Aliás, ele faz questão de até referir os nomes de gente anónima, mas corajosa, que são esquecidos e nunca lembrados e que JS faz questão de registar e de contar a sua história. Quase vinte anos depois, Luís Sepúlveda também publica um livro, As Rosas de Atacama (HistóriasMarginales, no título original), em que conta as histórias de pessoas não vulgares, mas que nunca seriam contadas por ninguém.

Assim, neste livro, ao se juntar a inteligência, o humor e a compaixão pelas personagens, somos completamente apanhados pela sua leitura.

 

Saramago pega em provérbios e citações (literárias muitas vezes, das quais muitas não se dá conta) e distorce-os, às vezes com um fim humorístico (94 – quem vai à guerra empadas leva, das freiras que reclamavam), outras vezes com intuitos de suscitar uma reflexão sobre ideias adquiridas (91 – não vão os caminhos todos dar a Roma, mas ao corpo).

 

Com facilidade e fluidez, passa de um registo de relato objetivo para um registo humorístico. Ou para um registo poético, às vezes extraordinariamente simples. Neste último caso, por exemplo, (96) enfim estas pazes com a França estão feitas, agora venham as outras com os mais países, Mas nenhumas me tornam a dar a mão que perdi, diz Baltasar, Deixa lá, tu e eu temos três mãos, isto responde Blimunda. Ou (109) Deite-me a sua bênção, minha mãe, Deus te abençoe, meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.

 

Pontuam a narrativa reflexões intercaladas e diálogos filosóficos a propor princípios gerais muito interessantes (e, muitas vezes, melancólicos).

Das primeiras, esta que incide na matemática e é muito interessante: (296) sem falar que o número é de todas as coisas que há no mundo a menos exacta, diz-se quinhentos tijolos, diz-se quinhentos homens, e a diferença que há entre tijolo e homem é a diferença que se julga não haver entre quinhentos e quinhentos, quem isto não entender à primeira vez não merece que lho expliquem segunda. Ou ainda: (339/340) Não é possível que Blimunda tenha pensado esta subtileza, e daí, quem sabe, nós não estamos dentro das pessoas, sabemos lá o que elas pensam, andamos é a espalhar os nossos próprios pensamentos pelas cabeças alheias e depois dizemos, Blimunda pensa, Baltasar pensou, e talvez lhes tivéssemos imaginado as nossas próprias sensações,

Dos segundos, entre rainha e infanta (313/4): só a vontade de el-rei prevalece, o resto é nada, Então é nada esta infanta que eu sou, nada os homens que vão além, nada este coche que nos leva, nada aquele oficial que ali vai à chuva e olha para mim, nada, Assim é, minha filha, e quanto mais se for prolongando a tua vida, melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, Oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara.

 

Saramago vai usando uma linguagem popular alternando com a mais erudita e antiga, num registo coloquial, aparentemente simples, mas na verdade muito complexo e difícil de manter com coerência. O que se torna extraordinário de conseguir sem falhas num livro com 400 páginas.

Nota curiosa: (339) Porém, de pompas reais temos nós avonde: Termo medieval e atualmente algarvio.

 

Pormenor da voz do narrador: nem sempre é um desconhecido (às vezes, outras vozes mais ou menos identificadas tomam conta da narrativa, por exemplo, Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda - 52), nem sempre é omnisciente (mas muitas vezes é). Às vezes, esta voz convida-nos a estarmos todos presentes na ação e a sermos todos narradores. Mais uma estratégia a dar mobilidade e vivacidade ao relato.

 

Muito interessante o simbolismo das “vontades”. Numa ida ao dicionário, alguns dos significados desta palavra incluem: poder de agir livremente, firmeza na decisão e constância na execução, desejo; intenção; determinação; deliberação, ânimo; coragem, empenho; interesse. Particularmente adequado à finalidade de fazer voar a passarola.

 

As descrições extensas às vezes cansam, mas é esse o papel do historiador: fazer relatos objetivos e pormenorizados do que efetivamente se passou. E Saramago assume muitas vezes esse papel.

Este livro usa o passado para iluminar com uma luz negra o presente, pelo que não me sinto confortável a lê-lo. Mas ele é acutilante e certeiro na crítica social que faz e que pode ser lida com proveito nos dias de hoje. Por exemplo, em (285), onde põe num prato da balança as grandes obras do regime e no outro a miséria humana, recorrendo a uma ironia subtilíssima.

 

Dois aspetos menos positivos que a leitura deste livro me suscitou.

 

Na primeira metade do livro, JS recorre ao realismo mágico que já não aprecio muito. Por isso, achei mais apelativa a segunda metade.

 

O final desapontou-me: qual o sentido ou lógica de Baltasar Blimunda encontrar Baltasar num auto de fé? Sabemos que naquele dia, mal chegasse a noite, a aeronave despenhar-se-ia, pois ela voava pela força dos raios solares. Que ele tivesse morrido na queda, seria aceitável. Ou que Blimunda o encontrasse num hospital, paralítico pela queda ou até a morrer. Assim, não é verosímil (e falo de uma verosimilhança literária). Na verdade, Saramago não dá explicação nenhuma. Ainda se Blimunda, na sua busca, encontrasse pessoas que tivessem ouvido algo acerca da passarola caída ou de Baltasar, mas nada, nunca ninguém ouviu nada. A única explicação que me ocorre é Baltasar ter caído no pátio da Inquisição, ninguém ter visto nada, ter sido logo preso (por isso, não pôde procurar Blimunda e nunca mais foi visto) e, ao fim de nove anos, secretamente condenado. Mas isto é forçar demasiado a nossa credulidade.

 

A seguir, incluo algumas citações muito divertidas no âmbito da ironia e do humor, a maior parte relativas à religião cristã.

 

(17) Ironia

D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu dever, e tudo espera do convencimento e criativo esforço com que o cumpriu, beija-lha como a rainha e futura mãe, se não presumiu demasiado frei António de S. José. É D. Maria Ana quem puxa o cordão da sineta, entram de um lado os camaristas do rei, do outro as damas, pairam cheiros diversos na atmosfera pesada, um deles que facilmente identificam, que sem o que a isto cheira não são possíveis milagres como o que desta vez se espera, porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres.

 

(22) Humor

Saíram logo alguns religiosos às estradas de em torno, repartidos em patrulhas, que se apanham o ladrão não se sabe o que misericordiosamente lhe fariam, mas não deram nem com o rasto dele,

 

(61) Humor

E para que alguma coisa se fosse adiantando entretanto, [João Elvas] estendeu a mão à esmola, primeiro a um fidalgo que de boa maré lha deu, depois, por distracção, a um frade mendicante que passava exibindo uma imagem e oferecendo-a ao ósculo devoto, com o que João Elvas acabou por largar o que tinha recebido. Não me cair um raio em cima, será pecado praguejar, mas alivia muito.

 

(95) Ironia

(...) ao todo cento e trinta e sete pessoas, que o Santo Ofício, podendo, lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente praticando a boa lição de Cristo quando a Pedro disse que o queria pescador de homens.

 

(150) Ironia

(...)  isto é sendo o Corpo de Deus, trouxe cada um no seu próprio corpo o que de melhor tinha em casa, a roupinha de ver ao Senhor, que tendo-nos feito nus só vestidos nos admite à sua presença, vá lá a gente entender este deus ou a religião que lhe fizeram,

 

(274) Humor

No dia seguinte a casa tem nova inquilina. A enxerga é a mesma, os trapos nem foram lavados, um homem bate à porta e entra, não há perguntas a fazer nem respostas a dar, o preço é conhecido, desaperta-se ele, ela levanta as saias, gemeu ele o seu gozo, ela não precisa fingir, estamos entre gente séria.

 

Um livro extraordinário e muitíssimo bem escrito, um esforço espantoso e bem conseguido da arte literária!

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Reviver o Passado em Brideshead (1981) - Uma Revisão


Cada vez que vejo esta série (baseada na obra homónima de Evelyn Waugh), faço-o com um olhar, uma abordagem diferente.

Desta feita, duas coisas se me impuseram. Primeiro, que esta é uma história infinitamente triste: uma história de derrotados, falhados, solitários, destituídos, infrutíferos, etc. Acentuada pela voz, que agora me surgiu como arrefecidamente desolada, de Jeremy Irons/Charles Ryder.

Aliás, antes, pensava que Ryder era a grande figura deste filme. Agora, não. Ryder é o aedo, o cego (em muito mais do que um sentido) que canta a história (a forma como Jeremy Irons lhe dá voz é tão encantatória como se fosse um canto).

A grande figura, aquela que atravessa todo o filme desde praticamente o início de tudo, é Sebastian/Anthony Andrews. Ele está sempre presente, em realmente todos e em cada um dos episódios.

Nos primeiros, fisicamente. Depois, nas conversas. E, finalmente, ele aparece sob formas subtis, sugeridas, nada explícitas: nos trejeitos, no estilo leve e encantadoramente humorístico de Julia (por exemplo, no barco, quando recebe as rosas de Ryder) e de Lord Marchmain (quando monologa com a família durante um jantar, por exemplo); ou na leveza afetuosa da Nanny Hawkins.

 

Sebastian é de tal forma uma presença (Anthony Andrews brilhante) que me pergunto o que representa ele de tão importante e central.

Primeiro, talvez a busca de uma leveza congregadora de afetos, nunca reconhecida pelos outros (incluindo por Ryder) e, portanto, no limite para sempre falhada. Daí ele procurar um seu sucedâneo na bebida, a companhia capaz, não de preencher a sua solidão, mas de a aliviar; porém sempre em direção à leveza.

Sebastian que tem em si uma fonte imensa de generosidade e de compaixão, expressas quase sempre de uma forma delicada e, mais uma vez, encantadora. Exceto no fim, ao cuidar de Kurt, que é absolutamente incapaz de orientar a sua vida sozinho, mas que explora Sebastian de forma grosseira, obrigando este de certa forma a ser generoso e compassivo agora de forma também grosseira.

Sebastian, cujo encanto tão perspicazmente diagnosticado por Anthony Blanche, é o mais saudável de toda aquela família. Daí ser ele o que mais terrivelmente sofre com a disfuncionalidade da família. Mostrando que o sofrimento intenso dificilmente torna as pessoas mais fortes ou mais construtivas. Pelo menos, não o tornou a ele. Mas que, apesar de tudo, até ao fim, não foi capaz de destruir a sua capacidade de ser amado e querido por quem era contactado por ele.

 

Ryder, por outro lado, é um órfão, daí Sebastian o ter adotado.

Orfão realmente, abandonado pela mãe e com um pai terrível de ironia e de ausência de afeto. E, como ele admite algures, sem ter vivido uma infância até conhecer Sebastian.

Na verdade, órfão do mundo, pois ele atravessa a vida sem perceber nada das pessoas com quem se dá, mas procurando mostrar que está por dentro. É uma figura verdadeiramente patética, que chega a dar pena até mesmo quando nos irrita com a sua pretensa auto-suficiência.

É uma pessoa perdida, muito mais perdida do que Sebastian. Porque, na sua incapacidade de compreender, nem sequer chega a saber como cuidar das pessoas com quem se relaciona (ao contrário de Sebastian): o amigo, a mulher, os filhos, Julia, Hooper – todos são a face visível do seu fracasso em cuidar. Incluindo a falha em cuidar de si próprio. A sua conversão final pouco mais é do que a admissão da sua total derrota, que ele acabou de verbalizar a Hooper no fim: ficamos a saber que, a partir daí, apenas lhe restará a ilusão de um deus para se sentir cuidado.

 

Ryder e Sebastian são então as duas faces de uma solidão inconsolável. A de Ryder, sombria porque nasce da absoluta ausência de empatia, sempre patente esteja ele com quem estiver. A de Sebastian, luminosa, porque ele a ilumina com a sua generosidade e desamparo. É com Sebastian que nós ficamos, acompanhados pela resplandecente banda sonora de Geoffrey Burgon e por uma outra música de fundo dada pela voz de Jeremy Irons.



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Dulce Maria Cardoso, Eliete - Parte 1 - A Vida Normal

 

Tinta da China, 2020

(94)

(…), era apenas uma incapacidade minha, não sabia questionar a origem das coisas nem alterar o que me desagradava, aceitava quase tudo à minha volta como inevitável e imutável.

Este é o ponto de partida de Eliete neste livro. Trata-se do ponto-chave deste romance. Porque é aqui que Eliete toma consciência da pessoa que foi até este momento. E essa tomada de consciência é o primeiríssimo passo para ela se começar a afastar dessa Eliete anterior. A partir daqui, vamos assistir ao seu crescimento (na p. 143, as interrogações começam a explodir dentro de Eliete), ao modo como vai superando a distância que vai dos sonhos da infância e da juventude até ao real da idade adulta, à sua caminhada para a independência. O livro acaba numa espécie de encruzilhada em que nos falta saber se Eliete tomará uma decisão exultante de corte com o passado ou se afinal não vai arriscar dar o salto decisivo. Dulce Maria Cardoso irá continuar com esta saga pessoal?

 

De todo o modo, a autora mostra-nos nesta obra que é pensando e escrevendo (sim, escrevendo, porque não? Nada nos diz que não estamos a ler um relato escrito) que expandimos a nossa humanidade. Mostra-nos Eliete a começar pequenina, e a acabar claramente num caminho bem mais amplo do que quando começou, por via destes dois processos, o do pensamento e o da escrita.

Devo confessar que a arte de Dulce Maria Cardoso quase conseguiu fazer-me acreditar na verosimilhança deste percurso. Este “quase” advém, não de qualquer falha da autora, mas simplesmente da minha convicção de que não é possível este crescimento pessoal numa sociedade que faz pressões imensas e insidiosas para o conformismo, se a pessoa não recorrer à leitura de livros (que não aparece nesta obra).

 

(274 e 275)

Veja-se aqui a excelente descrição de como os contextos sociais em que estamos mergulhados, e a pressão que eles exercem sobre nós, nos “obrigam” a desempenhar determinados papéis de que é muito difícil desprendermo-nos, mesmo quando eles já estão mortos para nós. Se não tivermos a ajuda e o apoio dos livros, é muito difícil resistir-lhes.

 

Nesta obra, Dulce Maria Cardoso prefere realçar o papel que as redes sociais desempenham neste processo. No que toca à Eliete, são elas que lhe dão o impulso para iniciar a sua caminhada de libertação. Mas também constituem um mundo que estimula a solidão acompanhada, fruto de um afastamento entre as pessoas onde cada uma fala de e para si mesma. E, finalmente, um mundo de aparente abundância, de irrealidade, que acaba por anestesiar Eliete e entorpecê-la, acabando por lhe roubar valor a tudo o que antes o tinha. Ou seja, este mundo foi um instrumento de libertação mas, ao mesmo tempo ou na sua sequência, de alguma forma foi um motor de um certo esvaziamento espiritual.

 

(204)

(…), o país não era para velhos, os tempos não eram para velhos, (…).

A forma como a avó de Eliete é vista e tratada ilustra igualmente o contexto onde este mundo das redes sociais floresce. Trata-se de uma componente deste livro que não ocupa o centro do palco, mas está sempre lá, um pouco como uma música de fundo baixinha (em particular, lembra-nos que esta é uma sociedade em que tentar viver o máximo de tempo possível não é sempre uma boa ideia).

 

Em suma, esta é uma obra que constitui uma inspiração, mas também uma provocação muito interessante que nos interroga e questiona a sociedade em que vivemos, uma obra que mostra mais do que demonstra, tudo feito sempre com muita arte por Dulce Maria Cardoso.

 

P.S. 1:

Curiosamente, a maior parte deste livro evocou emoções que me transportaram para a leitura que fiz d’A Náusea, de Sartre, há décadas atrás. Sinto-me imensamente longe disto tudo que Dulce Maria Cardoso descreve. Só faltaria a Eliete ir a um programa popular de TV para completar o quadro de uma banalidade completa. Não é que não sinta compaixão, é apenas que encontro em mim uma violenta aversão a este tipo de vida que é corrompida pela mediocridade sem qualquer brilho (a não ser o que vem dos ecrãs dos telemóveis).

Uma explicação óbvia para esta minha reação, claro está, é eu ver-me demasiado próximo de Eliete e não gostar de me ver retratado. É verdade, por exemplo, que fiquei com a minha curiosidade aguçada em relação ao Tinder. E não, não tenho nem vou ter conta lá, nem sequer visitarei o site, pois sinto perigo, sinto que aquilo, ao contrário do que foi para Eliete, representaria destruição para mim.

Uma outra explicação é eu não gostar do uso de palavrões, exceto em alguns (poucos) contextos de comicidade. Porque os palavrões têm conotações feias e são muito agressivos. Como acredito que as palavras inspiram ideias e as ideias inspiram ações, acho perigoso o uso libertário dos palavrões. Para mim, representam o começo da normalização da violência.

Aqui surge apenas o palavrão f*, logo desde a primeira frase. No fim, na p.247 a personagem explica que é para expressar a ausência de amor. Certo. Mas seria necessário? Penso que não. O leitor não é burro e apercebe-se dessa ausência logo a partir das primeiras páginas.

Outra função do uso dele poderia ser mostrar-nos que Eliete pertence a uma classe média baixa ou mesmo popular, um pouco à maneira dos livros de António Lobo Antunes (que este livro, pelo menos a sua primeira metade, parece evocar).

O certo é que, de cada vez que aquele palavrão surgia, ele era uma bomba que estilhaçava a construção estético-literária que eu ia fazendo até ao momento, deixando atrás de si cinzas frias e uma enorme ausência de interesse pela continuação da leitura. A explicação do seu uso por Eliete não me resolveu este problema.

Apesar disto, acabei o livro sentindo que, de facto, e no fim de tudo, tenho algo de Eliete em mim, que eu também já fui e ainda sou um pouco a Eliete.

 

P.S. 2:

(227)

(nota extra feita do ponto de vista da Psicologia)

Excelente descrição, e muito clara, de como as críticas e as “sugestões bem-intencionadas” só servem para afastar e isolar as pessoas a quem as dirigimos.

 


domingo, 8 de novembro de 2020

Alberto Ferreira, Diário de Édipo

 


Portugália Editora, 1965

 

(5)

Por isso havia pelas ruas só despojos: pedaços de madeira, pedras, vidros partidos e restos de esperança para quem quer que pudesse ler no invisível.

 

(12)

Gorki, porém, é um mestre que não oprime, pois o próprio do génio é conceder a liberdade.

E do sábio. O génio está demasiado fora do meu alcance, mas da sabedoria vou-me infinitamente aproximando. E sei que quanto mais sábio, mais respeito a liberdade dos outros.

 

(12)

Quando penso, experimento irreprimivelmente a necessidade de me explicar o que penso. Explicando-me, explico os outros e a sua condição enigmática. Bem, isto assim dito, parece estar certo. Não está. Porque não atinge o mais profundo pensar o diálogo com a própria consciência. Non cogito sed cogitamus. Em rigor, não há diálogo sem a activa presença de um outro, pois se connosco conversamos, anulamos a comunicação na insólita tentativa de nos objectivarmos como sujeitos singulares. De facto, não dialogo comigo – rigorosamente só me enfrento. Para descobrirmos um pouco da nossa essência temos de a manifestar aos outros. Talvez então, nos outros, possamos assumir a verdadeira consciência. Eu sei que ser não é apenas consciência – mas, sem a poderosa dimensão reflexiva, seríamos acaso homens e mulheres? Não basta afirmarmo-nos como seres. Temos de nos afirmar como seres humanos.

 

(14)

Cada um inventa a forma de se explicar. Eu, Édipo, ser do tempo, encontrei esta forma.

Para mim, este blog é também uma das formas que encontrei para me explicar.

 

(19)

(…) e ficámos os dois a gozar as poucas coisas que não custam dinheiro. Era – e é – um céu tranquilo, leve como asa de pássaro, composto na largueza caprichosa duma mancha de ouro velho refulgente.

 

(20)

Depois pressinto a intimidade desta pequena-burguesia que vai despertar daqui a minutos e dói-me a sua pequenez. Para me curar deste sentimento vou espantar-me novamente com a grandeza do Sol…

E dói-me a dúvida: serei eu pequeno também? E leva esta pergunta já uma resposta incluída? Aqui, em caso de dúvida, eu diria que fica excluída a absolvição. De uma coisa eu sei: esta interrogação só será útil se ela for o início e motor de uma mudança para melhor, de um crescimento. Caso contrário, a pequenez, a existir, ser-me-á irremediável.

 

(24)

«Escrevendo à luz débil me pergunto se é a morte ou a manhã que espero». Leio isto num dos meus poetas predilectos – Carlos de Oliveira. E eu mansamente te respondo o que tu sabes, meu triste, desesperado, grande poeta: espera-te a morte e a manhã.

 

(25)

Não passo de um enregelado em busca do calor da esperança, tão abatido como tu pela vida sem grandeza. Tão atingido no cerne do meu sentir como todos. Todos. Sei, porém, sei que há em nós uma fonte secreta de água viva.

 

(28)

Simplesmente: quando analiso o meu deserto, só pelo acto de o analisar, compreendo que franqueio as portas da liberdade.

Por isso, não abdico de pensar, de perguntar e de me interrogar. Também eu, assim, me vejo a abrir a porta à liberdade. Saindo eu, abraço-a.

 

(36)

Mas tenho comigo a liberdade de pensar aquilo a que aspiro. Essa é a minha força – ou uma das minhas forças.

 

(55)

Não crês, velho homem, que o nosso ódio se transforme em amor? E que só o teu ódio é infecundo? Que o teu ódio, companheiro de infames sortilégios, é incapaz de se reproduzir, extenuado de maldade, estéril como um diabo sem mulher? (…) Não sentes, pequeno monstro despedaçado, que ainda vives porque nós não crescemos? Enregelas como um ser sem trono. Regressa das sombras, Aquiles, e diz-nos: que vale reinar sobre um povo extinto?

 

(67)

Com tudo isto à nossa beira, cercados, ansiosos, deprimidos e esquivos. Que sei eu? O isolamento angustia, mas o que mais dói e deprime é o balir do rebanho. Por isso aprovo aquela literatura burguesa que dissolva a vulgaridade e o conformismo.

 

(78)

Ignoro se acerto. Sei, todavia, que muitos de nós desacertam. E esta verificação é a minha forma pessoal de acertar. A minha evidência.

 

(87)

(…) Hegel (…) Assim surgiu a filosofia como reconciliação (como reconciliação…) da destruição desse mundo real que o pensamento havia começado…

Penso a fim de ligar as peças do puzzle, e para dar sentido ao que me escapa… porque escapam, faltam sempre peças do puzzle.

 

(105)

Negar o que é e está não basta. Difícil, mas necessário é substituir o que é e está por um outro que o contém e supera.

 

(111)

Eu, que sou, por vezes, um esquecido da origem, sem saber meu nome, exprimindo românticamente a vida como o revolucionário que morre na barricada pelo ideal que só se realizará duzentos anos depois…

Valores pelos quais propugno e que sei que nem daqui a duzentos anos: compaixão e bondade como componentes essenciais nas relações entre as pessoas, consideração e respeito no cuidar das crianças, decência, cuidado com o ambiente, … No entanto, diz-nos mais à frente Alberto Ferreira, e nisso me consolo:

 

(126)

Sofro, com um pouco de metafísica e com alguma realidade vivida, em uníssono com os que pereceram sem ver florir as sementes de luz que generosamente espalharam. Ah! Mas não esqueço que tiveram a glória de as lançar à terra ingrata!

 

(127)

(…) (nesta quadra adormecida em que as ideias do futuro existem como sufocadas – António Pedro Lopes de Mendonça…).

(«António Pedro Lopes de Mendonça (Lisboa, 14 de Novembro de 1826 — Lisboa, 8 de Outubro de 1865), mais conhecido por Lopes de Mendonça, foi um jornalista, romancista, dramaturgo e folhetinista português, que também se destacou como activista social, defendendo um socialismo utópico e romântico como forma de melhorar as condições de vida do proletariado. Escritor eclético e de causas, foi sobretudo como crítico literário que ficou na história da literatura portuguesa.»

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Pedro_Lopes_de_Mendon%C3%A7a)

 

(130)

Interrogo a minha época. Interrogo-a e sinto que dela me distancio como se nela não vivesse. E não sou eu apenas. Somos nós – uma geração, (…).

 

(133)

Esta juvenil imprudência, a paixão generosa que nos anima, coloca-nos na situação ambígua de desadaptados.

 

(137)

Enquanto assim medito e escuto lamentações e gritos, dói-me não transferir esta ânsia do peito para os braços.

 

(157)

Quero o mundo sem vencedores para que não haja vencidos.

Por isso, detesto quase todos os desportos, incluindo o futebol.

 

(158)

Homem autêntico é, se não me engano, o que possui a mínima consciência da sua particular situação. E aquele que a possui repara que o mundo se divide: num lado constrói-se a humanidade, no outro aos poucos se destrói: nós ainda estamos no lado da destruição. Ainda que muitos não se deem conta desta angustiosa situação não deixaremos por isso de possuir uma consciência trágica. (…) eu sou do meu tempo… e vivo-o na consciência de que isto que me cerca e exila é e não é o mundo de amanhã.

 

(159)

Em cada dia, em cada hora, em cada instante teremos de permanecer no que somos e, ao mesmo tempo, de prevalecer sobre o que somos. Sem esta constante perspetiva cada homem pode morrer no íntimo da sua própria consciência e aí ficar solidificado como o fóssil da crisálida. Sem esta permanente acuidade cada homem tenderá a esquecer que a vida é algo que ele merece apenas obtenha a vitória sobre si e os outros. Vitória sobre si: renunciando ao que o aliena. Sobre os outros: domando o que nos outros conduz à alienação coletiva. Nada disto se obtém sem coragem.

 

(204)

Cada vez me furto mais à opressão do convívio gratuito, sem saber o caminho, recuando às cegas. Como poderei aferir o valor de uma presença humana? Uma coisa me parece irrefutável: é necessário reduzir os laços até converter a ligação ao silêncio. Quando se fala e condescende deixamo-nos invadir por aquilo que nos outros é pobreza.

Sinto isto de forma aguda em relação ao Facebook. Tantas vezes não se trata de condescendência, mas de cansaço e do reconhecimento que o adversário tem mais armas e mais violentas à sua disposição do que nós. A tarefa de não nos deixarmos invadir mantendo-nos no campo de batalha (que os outros escolheram como tal, não eu) parece de tal forma gigantesca e inútil que dele eu opto por me retirar e me manter afastado.

A investigação demonstra que quanto mais uma pessoa está disposta a exprimir certezas acerca de um determinado assunto, maior é a probabilidade de a sua ignorância sobre esse assunto ser maior. Ou seja, por outro lado, quem mais e melhor sabe, menos certezas tem e mais dúvidas verbaliza. Mesmo quando esta última posição de interrogação é a que permite melhor chegar à verdade (ou pelo menos de nos aproximarmos mais dela), ela é tão facilmente desbaratada pelos que têm certezas (ou fingem tê-las); e raros são os que resistem à tentação de o fazer. Também isto cansa infinitamente os que procuram honestamente a verdade.

A próxima citação de Alberto Ferreira lança mais alguma luz, infelizmente sem diminuir muito as sombras.

 

(231)

(…) Não se persuade um desconhecido com a retórica da justiça, do bem e da verdade. Nem a justiça, o bem e a verdade se inculcam em dois minutos de conversa. Tudo isto leva uma vida a ensinar. Uma vida e a própria vida. Respondo, cuidadosamente, como Édipo: estou aqui porque quero ser «um exemplo vivo de dignidade». Fitamo-nos nos olhos e compreendemo-nos quanto é possível.

O último período tem o tom inconfundível do “wishful thinking”, mas pouco provável de se concretizar.

 

(232)

Gostaria de ter ódio e não tenho. Preferia revoltar-me até às raízes mais profundas da minha dignidade ofendida, mas não me revolto. Preferia cuspir o meu desprezo, a minha raiva, e não o faço. Desejaria insultá-los até ao sentido mais justiceiro do insulto e não insulto. Estou aqui a discutir, a persuadir, a desfazer, ponto por ponto, as acusações que me atiram como pedradas. Estou assim porque o ódio, a revolta, o desprezo, a raiva, o insulto não constituem o profundo sentido da minha força, da minha dignidade e do meu humanismo. Estou assim porque resisto e resistir não é ofender. Estou assim porque luto na defesa – ao lado das vítimas… Estou assim porque luto à minha maneira. Porque viso demonstrar que o meu ideal é autêntico e o autêntico não pode deixar de impressionar um homem, mesmo que ele seja – ou pretenda ser – o meu carrasco.

 

(252)

Decerto pensava o que escrevia, mas tinha de sentir fortemente o que pensava para escrever.

E isso vê-se, sente-se em cada palavra, em cada frase ou parágrafo deste livro…

 

(254)

Por que não hei-de aceitar alegremente o provisório da vida se a morte é irremediável? Por que opor à alegria a trágica inquietação da morte? Por que não hei-de reconhecer o provisório da infância se dela algo me fica na recordação? Só a morte não recorda a vida…

 

(254)

Prudentes sábios insinuam-nos que o adolescente não sabe a vida. Que vozes são essas? Vozes roucas, secas, impuras. Aqui onde eu já cheguei, passados os anos itinerantes, bem vejo, bem reparo que me não completei, e, enquanto assim sou, algo da adolescência me sustenta. Orgulha-me esta condição.

Às vezes interrogo-me que parte de mim rejeita determinadas ideias áridas que me beneficiariam materialmente no curto e médio prazo (a longo prazo já não saberei dizer). E que parte de mim, a dominante, pelo contrário, adere a uma opção de vida pela justiça, pela bondade, pela decência. A fonte de onde nasceu esta parte sei eu onde está: na adolescência e na juventude, altura em que descobri que havia uma iniquidade mais geral no mundo, não apenas à minha volta; e que era possível a dignidade se me mantivesse fiel a uma ideia que me elevasse para além da minha condição natural (ou da condição que muitos outros me queriam impor).

 

(258)

Desistir dos caminhos da interrogação é ignorar definitivamente – e com essa definitiva desistência nos desarmarmos.

 

(259)

Quem julgue que tudo se alcança e apreende de uma só vez, sacrifica a esperança – e todo o lirismo da esperança – no altar de impossíveis mitos. Quem se proponha a perfeição sem respeitar o imperfeito, jamais tempera as armas com que se vence a espera desesperada. O absoluto é, sem dúvida, uma bela ideia mas a sua verdade dorme no relativo. A impassibilidade da ideia perfeita seduz mas não resolve as nossas contradições fundamentais.

Esperar o imediato ou a perfeição é garantir a certeza de um fracasso estéril, ou seja, com o qual quase nada se aprende de construtivo. Contentarmo-nos com o imperfeito também não é a solução. Ela está nesta proposta de Alberto Ferreira: propor-me a perfeição respeitando sempre o imperfeito.

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Texto que publiquei no Facebook, a 6 de novembro de 2020:

 

«Não basta afirmarmo-nos como seres. Temos de nos afirmar como seres humanos.» (Alberto Ferreira, 1965, “Diário de Édipo”, 2ª ed., p. 13)

Hoje, recordo o melhor professor que eu tive em toda a minha vida. Foi também professor de António Rosa Mendes que lhe dirigiu as seguintes palavras numa carta de 13 de novembro de 1984 e que faço também absolutamente minhas:

«Acontece porém que (…) você deixou na minha formação humana uma marca indelével. (…) Por isso, porque cada um tem o seu momento em que julga perceber um fulgor, uma vocação – eu tive esse e, queira ou não queira, foi você que o determinou (…).»

Alberto Ferreira foi professor de História da Cultura Portuguesa na extensão da Faculdade de Letras, em Faro, de 1979 até 1981.

Faz hoje 100 anos, 1 mês e 1 dia que Alberto Ferreira nasceu. Podemos encontrar a sua biografia (uma vida interessantíssima) e testemunhos (como o que transcrevi anteriormente) no livro “Alberto Ferreira, 1920-2000 – Escrita e Intervenção”, 2010, numa excelente edição da Biblioteca Nacional de Portugal, da responsabilidade de Maria José Marinho e de Manuela Vasconcelos.


E em

https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/photos/alberto-ferreira-1920-2000foi-um-resistente-antifascista-l%C3%BAcido-e-%C3%ADntegro-a-sua-/716664255109623/

e

https://aviagemdosargonautas.net/2011/09/19/alberto-ferreira-um-filosofo-esquecido-por-antonio-sales/

A propósito do seu valor como escritor-filósofo, e numa recensão aos livros “Ensaios: da Filosofia para a História” e “Diário de Édipo”, Óscar Lopes escreveu em 1965, n’O Comércio do Porto:

«Alberto Ferreira é o mais penetrante espírito filosófico que entre nós se me tem revelado desde que, há cerca de catorze anos, me responsabilizo por esta secção de crítica. (…)»

Termino por onde comecei. O melhor professor, a ensinar filosofia mas, principalmente, humanidade e fraternidade. Agora, ao reler Diário de Édipo, recordei-o e pude continuar a reconhecer-me como discípulo ainda e sempre de Alberto Ferreira. 


domingo, 1 de novembro de 2020

Platão, Górgias

 

Traduzido por Manuel de Oliveira Pulquério, edições 70, 1992.


«(…) fiz a pergunta para não te admirares se, daqui a pouco, te interrogar sobre coisas que parecem evidentes e que, no entanto, me obrigam a interrogar-te de novo. Se assim procedo, é, repito, para conduzir de forma coerente a discussão, não por qualquer espécie de má vontade pessoal. Penso que não nos devemos habituar a adivinhar-nos mutuamente o pensamento, antecipando as palavras que ainda estão por proferir; importa que tu desenvolvas livremente os teus raciocínios segundo os princípios que tu próprio estabeleceste.» (454 c)

Sócrates não está tão preocupado com o que vai dizer, mas mais com entender o que a outra pessoa lhe quer comunicar. Este é um extraordinário princípio a seguir nas nossas conversas e discussões: primeiro, querer perceber o outro.

Ele também não está preocupado em falar de si próprio ou das suas ideias. Eis uma excelente decisão para tomarmos no início de uma conversa: não falar primeiro de nós ou das nossas ideias.

Sócrates mostra ainda que quer aprender algo com o seu interlocutor. Eis também um ótimo preceito a seguir nas nossas conversas: tentar descobrir algo de novo sobre o nosso interlocutor, ou também com ele.

 

«Estou a pensar, Górgias, que deves ter assistido como eu a muitas discussões e observado que , quando dois homens se propõem conversar, é sempre com dificuldade que limitam o âmbito da discussão e raramente se separam depois de se ter instruído e esclarecido reciprocamente. Pelo contrário, se divergem em relação a algum ponto e um deles pensa que o outro fala com pouca exatidão ou clareza, perdem a cabeça, convencem-se de que o interlocutor age por maldade, levados mais pelo espírito de disputa do que pelo desejo de esclarecer o tema proposto. Alguns acabam por se injuriar grosseiramente e despedem-se depois de ter dito e ouvido tais coisas que os presentes chegam a deplorar a ideia de ter sido auditório de gente de tal categoria.

Porque digo eu estas coisas? É que me parece que tu, neste momento, estás a fazer afirmações que não são inteiramente consistentes e harmónicas com as que fizeste a princípio sobre a retórica. Temo, no entanto, refutar-te, não vás tu supor que, nesta discussão, me movem quaisquer razões pessoais contra ti, em vez do simples propósito de dilucidar a questão. Se vês as coisas como eu, terei muito gosto em continuar a interrogar-te; de outro mofo, fico por aqui.

Que espécie de homem sou eu? Sou daqueles que gostam de ser refutados quando estão em erro e que gostam de refutar os outros quando são os outros que erram, não sentindo nunca mais gosto em refutar do que em ser refutado. É que esta última situação é para mim muito mais vantajosa, porque reputo maior bem ser libertado do maior dos males do que libertar outrem. Nada, efetivamente, me parece mais prejudicial a um homem do que ter ideias falsas sobre a matéria que tratamos.» (457 c, d, e, 458 a, b)

Ideias interessantes sobre a discussão como um empreendimento em busca da verdade. O problema é que a maior parte das discussões não têm este objetivo, mas são antes questões de poder ou de conflitos passados não resolvidos. O que as inquina logo à partida.

 

«Admito, aliás, que tenhas falado com justeza e que simplesmente eu não te tenha entendido bem.» (458 e)

Humildade na comunicação.

 

«Polo – então tu preferirias ser vítima duma injustiça a cometê-la?

Sócrates – Eu propriamente não quereria nem uma coisa nem outra. Mas se tivesse de escolher entre praticar e sofrer uma injustiça, preferiria sofrê-la.» (469 c)

Uma das declarações mais importantes e contrárias ao senso comum, porque vai contra o dar-se primazia à sobrevivência pessoal, da história da Ética.

 

«Sócrates - (…) tu entendes que é possível ser feliz, sendo injusto e praticando o mal (…)?

Polo – É exatamente o que eu penso.

Sócrates – Pois eu digo que isso é impossível e este é o primeiro ponto sobre o qual estamos em desacordo. (…)» (472 d)

Felicidade sem se ser justo é impossível. Ser-se justo sem se ser bondoso é impossível (a menos que se aceite uma justiça desumana). Ser-se bondoso sem se ser compassivo é possível, mas é como andar por um caminho bom sem ver, sem ouvir, sem cheirar e sem sentir.

 

O programa deste livro é discutir e perceber o que nos traz mais felicidade. Como? É o que aqui Sócrates resume:

«(…) Das nossas longas discussões saíram refutadas todas as teorias, menos uma, que permanece firme: a de que convém evitar com mais empenho cometer a injustiça do que sofrê-la; que cada homem se deve esforçar mais por ser do que parecer bom, em público como em privado; que, se alguém procedeu mal em alguma coisa, deve ser castigado, porque o maior bem, depois do de ser justo, é passar a sê-lo, sofrendo o castigo que se mereceu; que é preciso fugir de toda a forma de lisonja, tanto em relação a si próprio como em relação aos outros, quer sejam poucos, quer sejam muitos; finalmente, que se deve pôr a retórica, como qualquer outra coisa, sempre ao serviço do bem.» (527 c)

E qual será este bem? Segundo Gandhi, o bem é muito simplesmente tudo o que vier a beneficiar os mais pobres dos pobres.

 

Uma nota final de chamada de atenção para uma contradição de Sócrates:

Em 516e, Sócrates diz: «(…) Ora, se estes homens [Péricles, Címon, Milcíades e Temístocles] tivessem sido bons cidadãos, como tu dizes, não teriam sofrido o que sofreram» [Péricles condenado por roubo e quase condenado à morte (516a). Címon condenado ao ostracismo (516d). Milcíades condenado a ser lançado ao báratro (516e). Temístocles condenado ao ostracismo e exilado para sempre (516d).]

Mas em 521c, Sócrates já apresenta outro critério quando se refere à possibilidade lhe acontecer o mesmo que àqueles homens:

«Não me venhas dizer uma vez mais que serei morto por quem o desejar, se não queres que eu te repita que isso apenas significa que um perverso matará um homem de bem; (…)»

e

521d: «(…) se alguém me levar a tribunal, expondo-me aos perigos que referes, esse alguém terá de ser mau, porque nenhum homem de bem arrasta ao tribunal um inocente.»

 

Afinal, uma escrita acessível, divertida e refletida por um dos maiores filósofos da humanidade, portanto, do máximo interesse para qualquer pessoa.




quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Ian McEwan, A Balada de Adam Henry

 


Livro

Livro de informação e de alguma denúncia (incluindo do que as crianças sofrem, os maus tratos a crianças, como o ser humano pode ser horrível para crianças). Mas dá visão equilibrada dos juízes, nem muito boa, nem muito má.

Livro de dilemas:

  • possibilidade de julgar mal e de cometer erros. Mas alguém tem de o fazer senão é a lei da selva ou de Talião. Pode ser um sistema de justiça injusto, parcial e falível, mas qual a alternativa? Conferir Euménides de Ésquilo que se revela como uma espécie de Antigo e Novo Testamento: por um lado, a lei dos deuses antigos, com aplicação e punição cegas, rígidas e absolutas; por outro, os novos deuses que admitem falibilidade (julgamento fundado por Atena é realizado por coletivo) e que existem circunstâncias alheias à vontade do criminoso que condicionam a sua ação.
  • conciliar religião com o bem ou com o melhor bem ou com o menor mal ou ainda com o evitar o maior mal.
  • questão de até onde pode ir o poder dos pais em relação aos seus filhos.
  • ficar ou não com o marido, 
  • separar os gémeos, libertar as 2 miúdas ou deixá-las presas à religião, etc

Livro de subentendidos debaixo de muitos silêncios, a maior parte dos quais não são da plenitude, pelo que são destrutivos das relações. É o que acontece a Fiona, pessoa muito reservada e distante, que opta demasiadas vezes pelo silêncio que recusa ao outro o reconhecimento: o marido aguenta, persiste e sobrevive; Adam não o suporta e não sobrevive. 

Reflexão sobre o envelhecimento e a falta de filhos (esta formulação já implica lamentavelmente uma crítica), triste porque o sucedido ativa a comparação com Melanie e com o resto da família, que se torna num jogo antecipada e inevitavelmente perdido.

Livro sobre a felicidade e o bem-estar: tanto da juíza, como das crianças de quem ela deve cuidar primordialmente.

Mais um escritor a defender que a bondade é o ingrediente humano mais essencial, embora aqui Ian McEwan o faça por intermédio de uma personagem (o que, por isso, não implica necessariamente que essa seja a sua opinião pessoal), juntando-se a José Saramago, Somerset Maugham e outros.



Filme

No livro, apesar de na 3a pessoa, relato é íntimo e a nossa identificação com Fiona é muito maior do que no filme.

No filme, o ponto de vista deixa de ser só o da juíza, o olhar passa a ser exterior. Deixa de ser tão intimista. Ela surge mais agressiva e com muito menos silêncios. Tanto Jack como Adam são também mais agressivos (no livro este é retratado como mais infantil, ingénuo e entusiasta com a vida – porque é desta forma que Fiona o vê).

No livro, há muito mais subtilezas (por exemplo, ela não pergunta a Jack se houve sexo e isso é algo que nunca ficamos a saber). Ou seja, Ian McEwan, que é o argumentista do filme, faz muitas concessões para não afastar público.

Segundo Vergílio Ferreira, há duas limitações em Arte que a tornam mais pequena e limitada, se é que não a destroem mesmo: contar e fornecer imagens.

No livro, como é contado do ponto de vista interior da juíza, há poucas imagens e as que aparecem servem mais para percebermos a personagem do que para percebermos o real - não é por acaso que, apesar de ser verão, Ian McEwan faz a chuva ser omnipresente como um fundo de melancolia na vida que adivinhamos solitária de Fiona (repare-se como o sol aparece na memória do início da relação com Jack.

No filme, chega-se a explicitar por palavras coisas que no livro eram no máximo sugeridas: há um excesso de contar e de imagens que sufoca o espetador e não deixa aquela margem fundamental no prazer da arte que é tentarmos imaginar e pensar o que lá falta, o que não é dito, no fundo, o que foi silenciado ou foi simplesmente deixado no silêncio.

Se o filme não é uma banalidade é por causa da excelente interpretação de Emma Thompson que procura e consegue criar esse silêncio. Mas, como é a única, o filme acaba por falhar a obra em que se baseia. Embora Jason Watkins, no papel de Nigel Pauling, seja também muito bom.

O final do livro é mais desesperado e põe mais a nu a fragilidade do ser humano: Fiona nada pode fazer senão aceitar o amor do marido pq Adam já morreu há 1 mês.


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Julian Barnes, A Única História




Quetzal, 2019

De como uma relação de amor tem um lado suave e luminoso, ao mesmo tempo que tem um lado instável e crítico, acabando este por se sobrepôr ao primeiro.

Ou de como uma família disfuncional se mantém em equilíbrio e quando a pessoa que sofre e é vítima (Susan) se afasta com a possibilidade de ficar finalmente feliz, acaba por se desmoronar completamente. Ou seja, como ela precisava da disfuncionalidade para manter o seu equilíbrio interior.

Um livro bonito e triste.


(46)
Mas a questão, Casey Paul, é que seria assustador, totalmente assustador, que, de uma maneira ou de outra, aquele homem continuasse vivo. E o que não desejas aos teus inimigos não vais imaginar para ti próprio.

Se eu posso ficar vivo depois da morte, também outros poderão. Eu não quero que Hitler, pedófilos, torturadores, etc., fiquem vivos. Se o preço que eu tenho de pagar para que isso aconteça é eu não sobreviver à minha morte, pois que não sobreviva. Eu morro definitivamente para que outros também morram definitivamente.


(48)
Havia algo na brandura dele, e na inclinação para o perdão, que quase provocava nos outros um mau comportamento?

Não me parece que seja assim tão simples. Muitas vezes, a brandura é o preço que pagamos para que não nos façam mal. Infelizmente, acaba sempre por aparecer alguém que, apesar disso, faz. E aí percebemos que não há nada que previna, que pague, que nos faça escapar do mal, a não ser o afastamento mais absoluto (e nem isso é uma garantia total, o infortúnio está sempre ao virar da esquina) ou a nossa própria destruição (o mal, sim, mas pelas nossas próprias mãos, não pelo arbítrio dos outros).


(52)
Susan: [Joan] Aprendeu a passar o tempo. É uma das coisas da vida. Andamos todos à procura de um lugar seguro. E se não o encontramos, então temos de aprender a passar o tempo.

Para nos distrairmos da angústia, para fugir dela, para nos esquecermos que vivemos inseguramente.


(53)
Susan: Mas nunca esqueça, senhor Paul. Toda a gente tem a sua história de amor. Toda a gente. Pode ter sido um fiasco, pode ter-se evaporado, pode nem ter tido pernas para andar, pode ter sido só na cabeça, que isso não a torna menos real. Às vezes torna-a mais real. Às vezes vemos um casal, parecem entediados de morte um com o outro e não conseguimos imaginá-los a terem algo em comum, nem a razão por que ainda vivem juntos. Mas não é só hábito ou indulgência ou conveniência, nada disso. É porque já tiveram uma história de amor. Toda a gente tem. É a única história.


(92)
O primeiro amor marca a vida para sempre: isso descobri eu com os anos. Pode não desqualificar amores futuros, mas eles serão sempre influenciados pela sua existência. Pode servir de modelo ou de exemplo a refutar. Pode obscurecer amores seguintes; mas também pode torná-los melhores, mais fáceis. Só que, por vezes, o primeiro amor calcina o coração e quem procurar depois só encontra cicatrizes.
“Fomos escolhidos pela sorte.” Não acredito no destino, já o devo ter dito. Mas agora acredito que, quando dois amantes se conhecem, já há tanta pré-história que só alguns resultados são possíveis. Mas os próprios amantes imaginam que o mundo está a começar de novo e que as possibilidades são ao mesmo tempo novas e infinitas.

O meu primeiro amor foi um desastre. Mas tinha de ser um desastre: que outra coisa pode acontecer quando se junta um tipo com corpo de 20 anos e idade mental de 8, com uma rapariga com a mesma idade física, mas já uma mulher? Calcinou? Não sei. Influenciou os seguintes? Sem dúvida, para minha infindável vergonha e miséria.


(96)
(…) Às vezes, a seguir, ela murmurava “Bem jogado, parceiro”. Às vezes, mais séria ou mais ansiosa, “Não desistas de mim, Casey Paul”. E eu também não sabia o que responder àquilo.

Esta frase bate-me fundo. Ser eu a dizê-la ou a ouvi-la. Uma tristeza que vem do fim dos tempos. Tanta gente que desistiu de nós. Sobrará alguém, no fim da nossa história? Uma das frases mais tristes, desesperadas e angustiadas do mundo. Porque sentimos em nós forças poderosas que, contra a nossa vontade, tal como aconteceu com Susan (que achava que não prestava), podem vir a provocar a desistência…


(97)
Não vi o pânico que estava dentro dela. Como podia adivinhar? Pensei que era só dentro de mim. Vejo, já tarde, que ele está em toda a gente. É condição da nossa mortalidade. Temos códigos de conduta [e ilusões partilhadas e alimentadas com os outros] para o dissipar e reduzir, anedotas e rotinas e tantas formas de alheamento e diversão. Mas há pânico e desordem à espera de irromper em todos nós, disso estou certo. Vi-o rugir entre os moribundos, como último protesto contra a condição humana e sua tristeza crónica. Está lá, nos mais racionais e equilibrados de nós. Só precisamos das circunstâncias certas, e reaparecerá. Então ficaremos à mercê dele. O pânico encaminha uns para Deus, outros para o desespero, alguns para obras de caridade [ou voluntariado…], outros para a bebida [Susan…], uns para o desapego emocional, outros para uma vida onde esperam que nunca nada de grave volte a perturbá-los [também…].


(141)
Joan: Paul, meu querido, já te disse que não dou conselhos. Segui o meu próprio conselho durante tantos anos e vê onde isso me levou. Isso acabou.

O melhor argumento que já ouvi para sermos modestos, senão mesmo silenciosos, no que respeita a dar conselhos.


(154)
Sexo triste é sempre de longe pior do que bom sexo, mau sexo, sexo solitário e sexo nenhum. Sexo triste é de todos o mais triste.


(194)
Por exemplo, achava que provavelmente não voltaria a ter sexo antes de morrer. Provavelmente. Possivelmente. A menos que. Bem vistas as coisas, achava que não. O sexo envolvia duas pessoas. Duas, primeira pessoa e segunda pessoa: tu e eu, para ti e para mim. Mas, hoje em dia, o ruído da primeira pessoa dentro dele estava silenciado. (…)

A mim, é o ruído ensurdecedor da parte que tem medo dos outros, que muitas vezes quase não deixa nem sequer ouvir a voz da segunda pessoa, quanto mais vê-la.


(235)
As coisas, uma vez acabadas, não se podem trazer de volta: agora sabia-o. Um murro, uma vez dado, não pode ser retirado. As palavras, uma vez ditas, não podem desdizer-se. Podemos continuar como se nada se tivesse perdido, ou feito, ou dito; podemos declarar que tudo esquecemos; mas o nosso íntimo mais íntimo não esquece, porque nos transformámos para sempre.

Julian Barnes – O Papagaio de Flaubert

  Quetzal, 2019 Julian Barnes é o mais continental dos escritores anglo-saxónicos. Entre outras coisas, vê-se isso pelo fascínio que ele dem...