sexta-feira, 21 de maio de 2021

Somerset Maugham, Servidão Humana

 


 Edição «Livros do Brasil» Lisboa, s/d


Romance de 1915 que relata o percurso de autoconhecimento de um jovem, desde a infância até à idade adulta. Um livro muito interessante que revela a inteligência, a lucidez, o amor pela arte e a busca de respostas por parte de Somerset Maugham.

 

Prefácio de Carlos Vogt

Servidão Humana inscreve-se num gênero de romance de longa tradição, o do romance de formação, de adolescência ou de aprendizagem (…)

Servidão humana é também, no próprio sentido da educação e da aprendizagem do herói adolescente, um romance realista-naturalista, no qual as forças de escravização do ser humano — físicas, psicológicas, religiosas e morais — vão sendo superadas e as provações por que ele passa vão dando medida do processo progressivo de seu amadurecimento e de suas conquistas sobre si mesmo e sobre o mundo. (…) mas é também um romance moderno, se não tanto pela forma, ao menos pela ousadia dos conteúdos e pela formulação narrativa da aventura da busca inútil e da venturosa inutilidade da descoberta do vazio da metafísica: a vida não tem sentido e a morte, nenhuma consequência.

(…) aos três pilares da sabedoria dos tempos de que nos fala o autor em Summing up. Dos três — Verdade, Beleza e Bondade — Somerset Maugham elege a última como tendo valor intrínseco e permanência porque associado ao amor-afeição (loving-kindness). É por ele e com ele que podemos nos libertar do fardo da servidão, se pudermos, humana.

 

(29)

(…) [Mrs. Carey] Amou-o, a partir de então, com um novo amor porque ele a tinha feito sofrer.

O que será aqui “sofrer”? Philip ter dado a ideia de que não a amava? E, depois de um gesto de ternura, mostrar-lhe que havia afeto? Possivelmente. O “novo amor” é o que nasce da perda e da sua recuperação, agora mais forte por causa da revelação da sua fragilidade.

 

(32)

Certo dia a sorte favoreceu-o, pois deu com As Mil e Uma Noites, na tradução de Lane. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foram as ilustrações. Para começar, leu primeiro as histórias de fundo mágico, e em seguida passou às outras. Lia e relia aquelas que lhe agradavam. Nada mais tinha importância para ele. Esquecia-se da própria vida que o cercava. Era preciso chamá-lo duas ou três vezes para que fosse jantar. Contraía, sem dar por isso, o mais delicioso hábito do mundo — o hábito da leitura. Ignorava que assim construía um refúgio para os momentos amargos da vida; por outro lado, ignorava também estar a criar um mundo irreal que transformaria o mundo real de todos os dias numa fonte de cruéis decepções.

Aqui nasce o sonho de viajar, nomeadamente ao Oriente, que o vai acompanhar toda a vida. Por isso, é um pouco inverosímil o final do livro, em que Philip abdica desse sonho para casar com uma mulher que não ama com particular paixão.

Sim, a leitura como refúgio contra a infelicidade. Porque para mim a felicidade passa muito pela segurança; e o mundo criado por muitos livros (não infelizmente todos) faz-me sentir seguro e em paz a maior parte do tempo (33 – Sempre que iniciava a leitura de um livro com dois viajantes solitários cavalgando à beira de perigoso abismo, sentia-se mais seguro do que nunca.).

Refúgio também para manter viva a esperança de um futuro melhor – mesmo agora, que já não devo ter nenhum futuro diferente do presente em que vivo.

Refúgio para tocar a beleza num mundo em que muita gente se esforça por a fazer desaparecer do dia a dia.

E para nos pôr em contacto com o mais elevado de nós, havendo arte que nos estimule a fazer isso. É por isso que a arte contemporânea me é tão estranha, isto é, não a sinto como arte porque, precisamente, não me eleva para lá da mesquinhez e da violência do dia a dia.

 

(50)

(…) As línguas mortas eram ensinadas com tanta exigência que o aluno sentia indizível enfado ao lembrar-se, mais tarde, de Homero ou Virgílio. (…)

Isto é tão verdade, já que se refere a um tipo estéril de exigência. Porque existe um outro tipo que eu usava como professor. Primeiro, relação afetiva com alunos. Segundo, fazê-los sentir que eu estava do lado deles. Terceiro, procurava ver em cada matéria como é que ela podia ser interessante aos seus olhos, não aos meus (Exemplo: ler os Maias procurando descobrir com quem estaria e como a gozar o Eça em cada episódio). Quarto, procurar pôr desafios ao seu alcance de modo a terem a satisfação de os vencer; mas tornando-os a pouco e pouco mais difíceis. Quinto, promover a entreajuda para tornar as aulas uma extensão do convívio de lá de fora, mas agora com um fim mais sério. Sexto, fazer testes um pouco menos exigentes do que a aplicada nas aulas.

 

(56)

Foi descoberto então que o novo diretor tinha a mania dos conhecimentos gerais. Alimentava dúvidas sobre a utilidade dos exames cujos temas eram preparados de antemão. Apreciava o senso comum.

Posição curiosa sobre os exames como instigadores de um ensino e consequente aprendizagem afunilados, formando os chamados idiots savants. Tendo a concordar. Era preciso que os exames fizessem pensar e que dessem liberdade para se ser criativo; isto é, que tivessem perguntas divergentes.

 

(63)

— Parece-me que você é muito sensível a respeito de sua infelicidade. Já pensou em agradecê-la a Deus?

(…)

— Enquanto a aceitar com rebeldia só sentirá aumentar a sua vergonha. Se, por outro lado, a considerasse como uma cruz que fosse obrigado a carregar porque a resistência de seus ombros assim o permitia — e aí está o favor de Deus —, então a transformaria numa fonte de venturas ao invés de uma desgraça.

Bem visto. Sem precisar da ideia de Deus: isto é, se eu faço isto porque é o que sou capaz de fazer, então estou bem. Não ótimo, não de acordo com os meus desejos – mas não importa, já que esta insatisfação existirá sempre, por melhor que eu esteja!

 

(92)

(…) lhe tivessem ensinado que os homens não eram talhados para a liberdade; (…)

E talvez não sejam. Porque, se aspiram a ela, é porque a não têm – e nós estamos sempre a desejá-la, não só em relação aos constrangimentos que os outros nos impõem, como às limitações com origem na nossa própria mente e que sentimos a pesar sobre nós.

Depois, por outro lado, veja-se como rapidamente e sem pensar caímos em inúmeras situações em que a nossa liberdade fica mais limitada do que anteriormente. O que faz com que, ao longo da vida, vamos caminhando sempre no sentido do cerceamento crescente da nossa liberdade, na imobilização cada vez mais densa e definitiva. Por exemplo, o meu último momento de liberdade efetiva foi aos 50 anos quando abandonei a Função Pública.

 

(93)

(…) Era tão jovem que ainda não sabia quão menor é o senso da obrigação por parte dos que recebem favores do que nos que os prestam. (…)

O que é natural, já que não estavam à espera de receber o favor. Além de que o seu infortúnio, que eles não consideram merecido, lhes faz sentir que têm direito a uma reparação. E, portanto, não há nada de que agradecer.

 

(104)

— Um unitário, muito simplesmente, não acredita em quase nada daquilo que constitui a crença dos outros, guardando, por outro lado, uma fé inabalável em algo que não sabe bem o que seja.

Gosto desta frase, principalmente da primeira parte (porque não existe isso de “fé inabalável”).

 

(111)

(…) Possuía, no entanto, o dom infeliz de ver tudo como na verdade era, e a realidade diferia terrivelmente do ideal de seus sonhos.

 

(111)

Não sabia como é vasto, árido e escarpado o país que o viajante da vida tem de atravessar para poder aceitar a realidade. É uma ilusão pensar que a mocidade seja feliz, uma ilusão daqueles que a perderam. Os jovens sabem que são miseráveis, pois alimentam os falsos ideais que lhes foram incutidos e todas as vezes que entram em contato com o real sentem-se magoados e contundidos. Dir-se-ia serem vítimas de uma conspiração. Os livros que leem, livros ideais pela necessidade de seleção, e a conversa dos mais velhos, que olham para o passado através da nuvem rosada do esquecimento, preparam-nos para uma vida irreal. São obrigados a descobrir por si próprios que tudo o que leram e tudo o que lhes ensinaram é mentira, mentira, pura mentira. Cada nova descoberta é mais um prego que lhes fixa o corpo à cruz da vida. O estranho é que as próprias pessoas que sofreram esses amargos desenganos trabalham inconscientemente, movidas por irresistível força íntima, para criar essa mesma atmosfera. (…)

Esta foi a minha vivência (nasci em 1958 e, na biblioteca do meu pai estavam muitos livros cuja leitura me era proibida). Hoje, penso que é diferente. Porque, desde crianças que todos têm acesso aos aspetos mais sórdidos e doentios da realidade e da fantasia do mundo (no entanto, não esqueçamos que tudo o que possamos ler, livros realistas ou não, tudo é sempre irreal porque 1) é a perspetiva singular de quem está a escrever; 2) as palavras não espelham a realidade nunca). Quem fica ou ficou melhor? Não sei responder. Mas avento a hipótese de que a sociedade, essa, fica pior. Pois parece-me que uma sociedade evolui principalmente devido àqueles que não aceitam as deformidades que ela revela, isto é, àqueles que (muito provavelmente com a leitura que dá mais espaço à reflexão) criaram dentro de si um ideal e que não se resignam.

 

(111)

[Hayward] Era um homem que nada sabia ver com os próprios olhos, mas só através do prisma literário; um homem perigoso porque se iludira a si mesmo, a ponto de se tornar sincero. Confundia honestamente o seu sensualismo com a emoção romântica, a sua indecisão com temperamento artístico e o seu ócio com a calma filosófica. O seu espírito, vulgar apesar da ânsia de perfeição, via tudo com dimensões maiores do que as da realidade, e os contornos apareciam mal definidos, imersos na névoa doirada do sentimentalismo. Mentia e no entanto nunca sabia que mentia. Quando lhe chamavam a atenção para isso, dizia que as mentiras eram belas. Era um idealista.

Não seremos todos assim, uns menos, outros mais? Claro que sim. Eu, pelo menos, enfio esta carapuça (note-se, sem comprazimento nenhum, embora, admito-o, com um certo bom humor) – exceto no achar que as mentiras são belas.

 

(118/9)

Quatro exemplos da ironia e dos seus matizes em Maugham, em alguns casos quase sarcástica se não fosse também compassiva, e a maior parte das vezes deliciosa:

Foi a iniciação de Philip na filosofia. Possuía um espírito prático e por isso movimentava-se com dificuldade no reino do abstrato: sentia, porém, inexplicável fascinação em acompanhar investigações metafísicas. Enchiam-no de pasmo; era o mesmo que observar um dançarino de corda bamba a fazer proezas sobre um abismo. Mas era empolgante.

Percebo lindamente, sinto o mesmo, embora eu goste de abstrações.

  

O pessimismo seduziu-lhe a mocidade; acreditava ser o mundo, no qual em breve penetraria, um tenebroso antro de misérias de onde a piedade fora banida. Nem por isso estava menos ansioso por conhecê-lo. (…)

Também me lembro de ser assim em jovem.


(…)

Afinal, deixou Heidelberg. Havia três meses que não pensava senão no futuro. Não levava saudades. Nunca se deu conta de que fora feliz ali.

Quantas vezes isto nos acontece! Principalmente, quando somos tomados pela vertigem do futuro que não nos deixa ver o presente.


Fräulein Ana ofereceu-lhe um exemplar de Der Trompeter von Sackingen e ele, em retribuição, brindou-a com um volume de William Morris. Muito acertadamente, nenhum dos dois chegou a ler o presente do outro.

 

(227)

(…) A gente só pinta por não poder deixar de fazê-lo. É uma função semelhante a qualquer das outras funções do corpo, com a diferença de que apenas um número relativamente pequeno de pessoas a possui. Quem pinta, pinta para si próprio; do contrário, suicidar-se-ia. Pensa um pouco nisto. Passar sabe Deus quanto tempo a tentar prender alguma coisa numa tela, suando, pondo nisso toda a alma, e qual é o resultado? Nove vezes em dez, uma recusa do Salon. Quando é aceite, os visitantes olham para ela dez segundos, de passagem. Se tiver sorte, algum tolo ignorante compra-a, pendura-a nas suas paredes, para olhar para ela só quando está à mesa do jantar. (…)

(…)

— No artista, a visão traduz-se por uma sensação particular! Ele é impelido a exprimi-la sem saber porquê, só pode fazê-lo com traços e cores. (…) Nós pintamos de dentro para fora. Se impomos a nossa visão ao mundo, ele chama-nos grandes pintores; se não, ele ignora-nos, mas nós continuamos os mesmos. Não atribuímos qualquer sentido às palavras grandeza e mediocridade. O que acontece posteriormente ao nosso trabalho não tem a menor importância: tirámos dele tudo quanto podíamos, enquanto o realizávamos.

Vergílio Ferreira subscreveria, certamente. Eu subscrevo! Sei que não sou nada de especial, mas fazê-lo é o que me dá mais satisfação. Claro, ter um público a aplaudir parece ser agradável. Mas tudo tem um preço. Aqui, o preço é vir também no “pacote” todos os que não gostam, que nos acham medíocres, e que não têm qualquer pejo em comunicá-lo aos quatro ventos. Aliás, devo dizer que a fama me assusta. Já assustava Séneca: (...) Consagrei todos os meus cuidados a sair da multidão e a fazer-me notar por um mérito qualquer. Que fiz senão expor-me aos ataques e mostrar à malevolência o local onde pode morder? (...) (Carta Sobre a Felicidade e Da Vida Feliz, tradução de João Forte (1994), Relógio d'Água Editores, p. 43). E acho que percebo perfeitamente a frase atribuída a Keith Richards, dos Rolling Stones: Everybody want to be famous until they are. Eu prefiro não querer .

 

(228)

(…) Ultimamente, Philip andava preso à ideia de que, vivendo o homem apenas uma vida, deve procurar fazer com que ela seja bem-sucedida. Para ele, porém, triunfar não significava adquirir fama ou dinheiro. Não sabia ao certo como definir o êxito, mas talvez consistisse no maior número possível de experiências ou no pleno desenvolvimento de suas faculdades. (…)

Questão interessante esta, a do êxito. Os existencialistas (por exemplo, com Camus e O Mito de Sísifo), falavam na primeira hipótese, a de multiplicação de experiências. Hoje, a Psicologia, daria mais ênfase à segunda hipótese. E eu? Os momentos em que sinto que tenho êxito? Quando era jovem, talvez pela variedade e pelo número de experiências originais. Mais velho, pelas alturas em que consegui realizar aquilo que sinto serem as minhas potencialidades, e não sentir que fiquei aquém; posso não ter sido nada de excecional, mas não senti que fiquei aquém.

 

(240)

(…) Diziam-no despido de emoções, mas ele sabia que estava à mercê delas: uma bondade inesperada comovia-o tanto que, às vezes, não se aventurava a falar, para que não lhe notassem a insegurança da voz. (…)

Ou uma vergonha imensa. Ou outra qualquer emoção negativa que se procura conter. Mas o que as pessoas veem é uma espécie de impassibilidade que confundem com indiferença. E como, muitas vezes, estão enganados! Eu cometi esse erro uma vez com o Francisco, era este pequeno ainda. Hoje sinto vergonha de ter pensado que ele tinha ficado indiferente. É que, de repente, não aguentando conter-se mais, comigo a criticá-lo, desata num choro angustiado que ainda hoje me pesa toneladas…

 

(240)

Quando Philip deixou de crer no cristianismo, sentiu que um grande peso lhe era tirado dos ombros; despejando-se da responsabilidade que sobrecarregava cada ato, quando cada ato era de infinita importância para a salvação de sua alma imortal, experimentou uma viva sensação de liberdade. Mas agora sabia que isso fora uma ilusão. Ao abandonar a fé em que tinha sido criado, mantivera intata a moral que era sua parte integrante. (…)

Por exemplo, as pessoas que deixaram de ser crentes e que se indignam com o comércio que é feito em Fátima à volta do que ela representa (e, uma vez que já não são católicas, lhes devia ser indiferente).

 

(241/2)

(…) que o pensamento de cada filósofo está inseparavelmente ligado ao homem que ele fora. Conhecendo-se-lhe a vida, era fácil imaginar em grande parte a filosofia que escrevera. Dir-se-ia que não agimos de certa maneira por pensar assim, mas antes pensamos de certa maneira por assim termos sido feitos. A verdade nada tem que ver com isso. Não existe a verdade. Cada homem é o seu próprio filósofo, e os primorosos sistemas que os grandes homens do passado construíram só foram válidos para os seus autores.

O importante, pois, é descobrir o que somos e o nosso sistema filosófico construir-se-á por si mesmo. (…)

Na filosofia não sei, mas na psicologia parece que é assim. Mais uma vez, a ideia de que as nossas escolhas e criações decidem-se num lugar ignorado de nós mesmos; só depois é que arranjamos razões para as sustentar.

Agora, a ideia interessante aqui é a de que, conhecendo-nos bem, automaticamente acabamos a construir o nosso sistema pessoal pelo qual a nossa vida se orientará. Portanto, pensar sim, mas não em conceitos abstratos e fora de nós, criados por outros. Porque o resultado inevitável, acabado o período de encantamento, é o envelhecimento e a perda de sentido daquilo que nos foi inculcado.

 

(242)

A grandeza da luta pela vida parecia-lhe emocionante e a regra moral que ela sugeria concordava com as suas predisposições. Dizia que a força era o direito.

Atenção a esta última frase que foi traduzida de forma um pouco ambígua. O original é:

He was intensely moved by the grandeur of the struggle for life, and the ethical rule which it suggested seemed to fit in with his predispositions. He said to himself that might was right.

Porquê atenção? Porque eu diria que Maugham quer dizer que Philip acha que, na sociedade, a força é que tem razão. E depois explica porquê.

De um lado está a sociedade, um organismo com as suas leis de desenvolvimento e auto-preservação e, do outro, o indivíduo. A sociedade classifica de virtuosas as ações que redundam em seu proveito, e de viciosas as que prejudicam. Bem e mal não significam mais do que isso.

Não bem a sociedade. Se fosse ela, há muito que se teriam acabado as injustiças que se exercem sobre a grande maioria da população, isto é, da sociedade. Aliás, Maugham põe Philip a ser lúcido na observação (a força é que tem razão), mas depois escapa-lhe a conclusão lógica: não é a sociedade que classifica, mas quem detém o poder e quer mantê-lo ou aumentá-lo é que classifica o que é bom e o que é mau. É por isso que, acertadamente outra vez, Philip convida-nos a desconfiar do que nos dizem ser o bem e ser o mal.

De qualquer modo, uma reflexão muito estimulante.

 

(243)

(…) Sim, porque é evidente que o Estado e o indivíduo consciente de si mesmo são irreconciliáveis. Aquele se serve do indivíduo para fins próprios, espezinhando-o se é contrariado, recompensando-o com medalhas, honras e pensões se é fielmente servido; este, forte somente na sua independência, move-se no seio do Estado, pagando (por conveniência) certos benefícios recebidos, em dinheiro ou serviços, mas sem sentir a menor obrigação; indiferente às recompensas, pede apenas que o deixem em paz. É um viajante independente que faz uso dos bilhetes Cook porque lhe poupam incômodos, mas olha com um desprezo bem-humorado para os grupos que se entregam ao guia. O homem livre não pode agir mal. Faz tudo o que deseja... quando pode. Sua força é o único estalão de sua moral. Reconhece as leis do Estado e pode infringi-las sem se sentir em falta, mas, quando punido, aceita o castigo sem rancor.

A força está com a sociedade.

Aqui estão em embrião as ideias anarquistas, para quem o inimigo é o Estado. Hoje, infelizmente, sabemos que a realidade é mais complexa que isso. Há a suspeita fundamentada de que o Estado é apenas um testa-de-ferro de outros interesses e de outros poderes. Quando ambos coincidem com os da população que afirma defender, tudo bem. Quando não, são os da população que são sistematicamente sacrificados. E nunca a ganância dos poderosos fica satisfeita. É por isso que desde sempre oiço dizer que o povo precisa de fazer sacrifícios para ter um futuro melhor… só que esse futuro nunca chegou, nem vai chegar! José Mário Branco, 1982(?), em F.M.I.: (…) Sempre a merda do futuro, a merda do futuro! E eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos! (…) Entretanto, o número de ricos vai aumentando sempre, o fosso entre ricos e pobres idem, e há até um banqueiro que era conhecido em Portugal como o D.D.T. (porque era igualmente tóxico, como se veio depois a descobrir): Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo.

 

(250)

Contraía amizades casuais, mas não amigos íntimos, pois não lhe parecia que tivesse alguma coisa de particular para dizer aos companheiros. Quando procurava interessar-se nos problemas destes, tinha a impressão de que o achavam com ares protetores. Não era desses que conseguem falar das suas predileções sem cuidar de saber se isso aborrece ou não o interlocutor. Um colega que alimentava pretensões artísticas, ao ouvir que ele estudara arte em Paris, tentou discutir o assunto com ele. Philip, porém, não era indulgente com as opiniões que discordavam da sua; e, percebendo que as ideias do outro eram convencionais, limitou-se a responder por monossílabos. Desejava travar relações mas não se decidia a tomar a iniciativa. O temor da má acolhida impedia-o de ser afável e ele ocultava a sua timidez, que ainda era grande, por trás de um exterior frio e taciturno. (…)

Como a literatura pode dar um retrato quase exato do que nós somos… no meu caso, tirando as últimas palavras, está lá tudo.

 

(299)

— Não vejo a utilidade de andar lendo e relendo a mesma coisa — disse Philip. — Isso não passa de uma forma laboriosa de preguiça.

[Hayward] — Acaso julga ter um espírito tão grande que pode compreender à primeira leitura o mais profundo dos pensadores?

— Não quero compreender, não sou crítico. Não me interesso pelos escritores senão por minha causa.

— Então por que você lê?

— Um pouco por prazer, porque é um hábito, e eu me sinto tão inquieto quando não leio como quando não fumo; e outro pouco para me conhecer. Quando leio um livro, tenho a impressão de que o faço apenas com os olhos, mas às vezes encontro uma passagem, talvez uma única frase que tem sentido para mim, e que se torna parte de mim mesmo. Tirei do livro tudo quanto me era útil e nada mais poderei extrair dele, ainda que torne a lê-lo uma dúzia de vezes. Tenho a impressão de que nós somos como um botão de flor: a maior parte de nossas leituras desliza sobre nós sem produzir o menor efeito, mas certas coisas, que têm para nós um sentido especial, abrem uma pétala: uma a uma as pétalas desabrocham e por fim surge a flor.

Philip não estava satisfeito com essa comparação, mas... como traduzir melhor um sentimento tão impreciso?

Diria que ambos têm razão. Ler e reler tanto serve para se nos abrirem novas perceções, como pode ser sintoma de uma certa preguiça (por exemplo, eu ler westerns). Mas que mal tem isso? Não temos talvez de estar sempre ler livros elevados. É certo que isso nos rouba tempo para as leituras que realmente nos importam. No entanto, quando decidimos pegar num livro mais ligeiro, não é pondo-o de lado que vamos pegar num tratado de filosofia: quando precisamos de uma leitura mais leve, não conseguimos fazer uma mais pesada. Ou seja, pararíamos de ler e iríamos fazer qualquer outra coisa, mas não ler algo de complexo. Assim, mais vale ler um livro ligeiro.

Sim, eu também leio por aquelas razões. Confesso que também não viso cultivar o meu espírito, mas ter prazer e aprender alguma coisa sobre mim, sobre as minhas deficiências e sobre como superá-las.

Agora, se o livro for bom (chamo de boa aquela obra que deixa um espaço grande de criação e de descoberta ao leitor), as releituras fazem surgir novos aspetos das quais não tínhamos dado conta anteriormente. Novos e relevantes para nós, claro. Mas, tirando este aspeto, Philip/Maugham é certeiro. Até na dificuldade de definir o que pode estar por detrás do gosto da leitura.

 

(300)

[Hayward] Podia ainda falar com delícia sobre literatura; o seu gosto era refinado, e elegante o seu julgamento. Manifestava um constante interesse pelas ideias, o que fazia dele um companheiro agradável. Na realidade essas ideias nada significavam para ele, uma vez que não lhe produziam o menor efeito. Tratava-as como teria tratado belas porcelanas numa sala de leilão. Manuseava-as com prazer, sentia-lhes a forma e o brilho, avaliava-as mentalmente para depois tornar a pô-las nas prateleiras, esquecendo-as de todo.

Bom, em relação às ideias em geral, também reajo assim. Acompanho-as admiro-as como acompanho um trapezista de circo. Mas, há algumas que rompem esta barreira e soltam múltiplos significados e reações dentro de mim. Portanto, nem todas vão parar esquecidas na prateleira. Mas algumas, admito que sim. E nem sempre a razão é o desinteresse. Muitas vezes, é a cobardia de as pôr em prática que mas faz rejeitá-las como desinteressantes.

 

(301)

Havia muito chegara à conclusão de que nada era mais divertido do que a metafísica, mas não estava certo da sua eficácia nos assuntos da vida. O pequeno e bem elaborado sistema que construíra em resultado das suas meditações em Blackstable de nada lhe servira durante o seu capricho por Mildred. Não podia afirmar com segurança que a razão prestasse grande serviço como norma de conduta. Parecia-lhe que a vida não dependia dela. Lembrava-se com muita nitidez da violência da comoção que dele se assenhoreara e da sua incapacidade de reagir, como se estivesse manietado e por terra. Lia muitas coisas sábias nos livros, mas só podia julgar por experiência própria. Não sabia se era diferente dos outros. Ao agir, não calculava os prós e os contras, os benefícios que lhe adviriam do ato ou o prejuízo que pudesse resultar da omissão; mas todo o seu ser era irresistivelmente impelido. Não agia com uma parte de si mesmo, mas com toda a sua pessoa. A força que o dominava nada parecia ter de comum com a razão: esta limitava-se a indicar os métodos de obter aquilo por que a sua alma ansiava.

Mais uma vez, e com Vergílio Ferreira, a razão como serva das emoções ou de algo que está aquém do consciente.

 

(378)

(…) Sou um homem dotado, por sorte, de sentidos muito agudos e entreguei-me a eles de toda a alma. Agora é preciso pagar o tributo, e estou pronto a isso.

Philip contemplou-o por um instante.

— E não tem medo?

Durante alguns segundos Cronshaw não respondeu. Parecia pensar no que ia dizer.

— Às vezes, quando estou só. — Olhou para Philip. — Pensas que isso é uma condenação? Estás enganado. Não tenho medo do meu medo. A doutrina cristã, de que a gente deve viver sempre com os olhos postos na morte, é uma loucura. A única maneira de viver é esquecer a morte. A morte não tem importância. O temor dela jamais devia influenciar a menor das ações de um homem sábio. Sei que vou morrer lutando para respirar e sei que hei de ter um medo horrível. Sei também que não me será possível evitar o amargo arrependimento do género de vida que me levou a tais circunstâncias; mas desde já desautorizo esse arrependimento. E agora, alquebrado, velho, doente, pobre, moribundo, tenho ainda nas mãos a minha alma e não me arrependo de coisa alguma.

Primeiro aspeto: encarar o medo, aceitá-lo e não ter medo do medo (que nos leva a fazer coisas de que nos envergonhamos).

Segunda ideia: Ter medo só é condenação se tivermos medo de ter medo.

Terceiro aspeto: saber, com um saber de olhos abertos, que pode acontecer o pior no momento de morrer. Mas recusar ficarmos dominados por essa imagem de um futuro provável, mas não certo, ou condicionarmos as nossas decisões atuais a ela. Por isso, exclamamos, entre revoltados e resignados:

(516)

Que preço pagamos por sermos diferentes dos animais!

 

(390)

E por que agiam as pessoas desta maneira e não daquela? Portavam-se de acordo com os seus sentimentos, mas esses sentimentos podiam ser bons ou maus. Parecia questão de puro acaso levarem ao triunfo ou ao desastre. A vida afigurava-se-lhe uma inextricável confusão. Os homens corriam dum lado para o outro, apressados, impelidos por forças que desconheciam. E o objetivo daquilo tudo escapava-lhes. Dava a impressão de se apressarem apenas por amor à pressa.

É interessante notar que a Psicologia Evolucionista e a Neuropsicologia vieram aclarar muitos motivos pelos quais os homens se movem. O objetivo é a sobrevivência da espécie, que passa pela sobrevivência pessoal e pela reprodução. E todo o nosso sistema nervoso está desenhado e construído para cumprir essas finalidades. Atente-se que, dentro delas, cabem (talvez não de modo muito óbvio) os valores mais elevados que a nossa espécie foi capaz de elaborar.

 

(435)

(…) Tinham os Athelny uma qualidade que ele não se lembrava de ter encontrado noutras pessoas, e que era a bondade. Só agora percebia isso, mas era evidentemente a beleza daquela bondade que o atraía. Em teoria, não acreditava em semelhante coisa: já que a moral era simples questão de conveniência, bem e mal não tinham sentido. Não gostava de ser ilógico, mas tinha ali, diante de si uma bondade simples, natural, espontânea, e ele achava-a bela. (…)

Interessante encarar a bondade pelo seu lado estético. Ver a bondade não como coisa insonsa, não como uma espécie de imperativo ético ou moral, mas como algo que pode ser apreciado pela sua beleza.

 

(455)

(…) Era como se os homens fossem títeres nas mãos de uma força desconhecida que os impelia a proceder de um modo ou de outro. Faziam algumas vezes uso da razão para justificar as suas ações. E quando isso era impossível, procediam da mesma maneira, a despeito da razão.

— A humanidade é muito esquisita... — disse Philip. (…)

Novamente, a velha perplexidade face ao pouco poder real da razão. À sua função de “bengala” para justificar até o injustificável.

 

(489)

Que desproporção entre o esforço e o resultado! As brilhantes esperanças da juventude tinham de ser pagas pelo preço amargo da desilusão. Como a dor, a doença e a desgraça pesavam na balança! Que significava tudo aquilo? Pensou na sua própria vida, nas vivas esperanças com que entrara nela, nas limitações que lhe eram impostas pelo corpo, na falta de amigos e na ausência de afeição que lhe cercara a juventude. Sempre fizera o que lhe parecia melhor, mas que desastre o seu! Outros homens, sem maiores vantagens do que ele, triunfavam e outros ainda, com muito mais predicados, falhavam! Parecia pura questão de sorte. A chuva caía tanto sobre o justo como sobre o ímpio, e para nada neste mundo havia motivo ou causa.

(…) A resposta era evidente. A vida não tem sentido. Sobre a Terra, satélite dum astro que viaja velozmente pelo espaço, seres vivos surgiram sob a influência de condições criadas pela história do planeta. E, tendo assim havido um começo de vida na Terra, sob a influência de outras condições haverá um fim. O homem, criatura não mais importante do que as outras formas de vida, não surgiu como o ponto culminante da criação, mas como uma reação física ao meio ambiente. (…)

(490)

(…) A vida não tem nenhum sentido. E, vivendo, o homem não cumpre finalidade alguma. É indiferente que ele nasça ou não nasça, viva ou deixe de viver. A vida é insignificante e a morte, sem consequência. (…) Era ele a criatura mais insignificante naquela massa pululante da humanidade que, por breve espaço, ocupa a superfície da Terra. E era todo-poderoso porque arrancara ao caos o segredo da sua inanidade. (…)

(…) Assim como o tecelão desenha o tapete sem outro cuidado que não o prazer estético, pode também um homem viver a sua vida; ou, para quem acredita que os seus atos não dependem da vontade, nada impede de contemplar a própria existência como um desenho. Mas não entra nessa procura nem necessidade nem utilidade. É simplesmente a busca de uma satisfação pessoal. Acontecimentos diversos, ações, sentimentos, pensamentos podem traçar um desenho regular, trabalhado, complicado ou belo. (…) A vida afigurara-se-lhe horrível quando medida pelo padrão da felicidade, mas agora tinha a impressão de ganhar forças ao descobrir que ela podia ser aferida por outros padrões. A felicidade importava tão pouco como a dor. Uma e outra contribuíam, como todos os demais pormenores da sua vida, para a elaboração do desenho. Por um instante, teve a impressão de pairar acima dos acidentes da sua existência e sentia que eles já não podiam atingi-lo como antes. O que quer que lhe acontecesse agora, seria apenas mais um motivo a acrescentar à complexidade do padrão. E quando o fim se aproximasse, ele rejubilar-se-ia pelo seu acabamento. Seria uma obra de arte e nem por ser ele o único a conhecê-la deixaria de ser bela; e com a sua morte essa obra de arte cessaria de existir.

Philip sentia-se feliz.

O sem-sentido da vida. Como ele pode ser salvo pela beleza (que deve ser aferida apenas pelos nossos próprios olhos, para haver possibilidade de salvação). Como a felicidade não deve ser um valor a dominar e a condicionar os outros. Como tudo, mas tudo mesmo, pode contribuir de forma positiva para esta visão da vida. Ou seja, para a sua plena aceitação, mas esta sempre para nos elevarmos a nós mesmos e à nossa existência aqui na Terra, não para nos diminuirmos ou nos destruirmos.

Destaco ou, para quem acredita que os seus atos não dependem da vontade, nada impede de contemplar a própria existência como um desenho. Isto é, mesmo que eu não tenha sido artista a modelar a obra da minha vida, posso observá-la como se fosse um filme que não foi feito por mim (mas pelas circunstâncias materiais e humanas) e apreciar a sua beleza.

 

(524)

Philip descobriu que a maior tragédia da vida daquela gente não era a separação nem a morte, coisas naturais cuja dor podia ser acalmada pelas lágrimas: era, sim, a perda do emprego. (…)

(525)

Conhecia a procura desesperada de trabalho e o desânimo, que é mais duro de suportar do que a fome. Dava graças por não ter de acreditar em Deus, pois, perante semelhante estado de coisas, isso seria intolerável. A gente só podia reconciliar-se com a existência pela certeza de que ela não tinha sentido.

Outra vez o sem-sentido da vida. E o levantar da suspeita de que nenhuma ação assistencialista compensa em dignidade o ter-se um emprego. Mas nada é pior do que a fome e do que ver-se os filhos com fome, isso posso garantir – Maugham aqui não tem razão.

 

(565)

(…) Cronshaw dissera-lhe que os fatos da vida não têm importância para aquele que, pelo poder da fantasia, se mantém senhor dos reinos gémeos do tempo e do espaço. Era verdade. Ama sempre, e que ela seja sempre bela!

Será? A fantasia conseguirá fazer-nos senhores da vida mental (penso que é a isto que Cronshaw se refere)? Talvez com a ajuda de livros, como aconteceu comigo nos anos de chumbo da infância e da juventude.

 

(565)

Pensando na longa odisseia de seu passado, aceitava-a alegremente. Aceitava a própria deformidade que tão dura lhe fizera a vida. Sabia que ela lhe deformara também o caráter, mas percebia agora que graças a ela tinha adquirido aquele poder de introspeção que tanto prazer lhe dava. Sem isso, jamais teria possuído a sua aguda apreciação da beleza, a paixão da arte e da literatura, o interesse no variado espetáculo da vida. O ridículo e o desprezo de que tantas vezes fora alvo haviam lhe dado vida interior e feito desabrochar aquelas flores que, sabia-o ele, jamais perderiam a fragrância. Via, depois, que a normalidade era a coisa mais rara do mundo: todos tinham algum defeito de corpo ou de espírito. Lembrou-se de toda a gente que conhecera (O mundo inteiro parecia-se com um hospital, não tinha pés nem cabeça). Via uma longa procissão deformada física e mentalmente, uns com doença do corpo, coração ou pulmões débeis, e outros com doença do espírito, fraqueza de vontade ou tendência para a embriaguez. Naquele momento podia sentir por todos eles uma santa compaixão. Eram desamparados instrumentos nas mãos de um acaso cego. Podia perdoar a Griffiths a sua traição e a Mildred a dor que lhe infligira. Não eram responsáveis pelas suas ações. A única atitude razoável era aceitar a parte boa dos homens e ter paciência com as suas faltas. As palavras do Deus agonizante atravessaram-lhe a memória:

Perdoai-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem.

Sim, o que o me aconteceu na infância e na juventude também deformou o meu caráter. Não uso isso para desculpar-me de alguma infâmia da minha autoria, mas sei que não a fiz com intenção de a cometer. Toda a minha vida se centrou em tentar escapar-me à crueldade do mundo, da real, mas principalmente da imaginada e antecipada. Sei que todo o mal que realizei, a maior parte do qual terá sido por omissão, tem a sua génese aí. Não me desculpo, mas compreendo-me e procuro aceitar-me, porém sabendo que nunca o conseguirei. Mas aí, mais uma vez, não serei único: milhões, biliões me acompanham nesta forma especificamente humana de solidão.


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Ramalho Ortigão, Banhos de Caldas e Águas Minerais

 

Quetzal Editores, 2019


Este livro parece ser um roteiro destinado a quem nunca frequentou estes sítios ou a quem já os frequenta, mas quer saber mais pormenores. E Ramalho mostra que não se poupou a esforços: viajou muito, recorreu com abundância a relatórios de análises clínicas e a livros de defensores das qualidades terapêuticas das águas.

Um primeiro aspeto curioso deste livro reside nalgumas considerações de saúde muito pertinentes e que fazem todo o sentido ainda hoje. Por exemplo:

(23)

Portanto, a primeira coisa que importa fazer ao ir para as Caldas é consultar um bom médico.

 

(23)

(…) Combater, ainda que o mais cientificamente possível, todos os pequenos sintomas irregulares do organismo é tirar à natureza os seus meios de prover à nossa conservação. Em muitos casos, em que a febre é um meio de cura empregado pela natureza, combater a febre é matar o doente. (…)

Esta ideia já é compreendida na medicina física, embora não aceite pelas pessoas: talvez por isso, ainda é brutal a quantidade de medicamentos que o doente exige do médico e que este muitas vezes prescreve às dúzias. Veja-se o livro Less Medicine, More Health, escrito por um médico, professor de medicina e investigador, H. Gilbert Welch.

 

(23)

Igual perigo em atacar os sintomas ostensivos em vez da verdadeira causa do mal em muitas outras enfermidades e principalmente nas doenças do coração.

Só uma interrogação: porque é que ainda hoje não se segue isto na doença mental? Porque é que na doença mental tratamos os sintomas? Por exemplo, se a pessoa se sente deprimida, dá-se-lhe um antidepressivo. Eis um excelente exemplo de como as ideias científicas fazem muito lentamente o seu caminho na sociedade.

 

(24)

(…) a [intervenção - está no original e “caiu” nesta edição] terapêutica compromete o sucesso da cura, sendo o método expectante da escola de Viena o que mais convém à vida do enfermo.

Deu-me vontade de rir a expressão usada: “método expectante”. Vontade de rir pela formulação, pois a ideia que ela expressa parece-me corretíssima (ver livro de H. Gilbert Welch acima referido).

 

Ramalho Ortigão até diz como o médico deve fazer em relação à doença física:

(24)

A obrigação de um médico moderno é socorrer-se de todos os meios de investigação que hoje lhe prestam as ciências positivas, conhecer inteiramente, até onde elas estão descobertas pela fisiologia, as funções de cada órgão, penetrar pela percussão, pela auscultação, pelo exame das secreções, pelo movimento das artérias, pela temperatura exata do corpo, nas profundidades do organismo humano, até descobrir através dos variados e complexos sintomas da doença a causa latente que a determina.

 

(38)

(…); assim o fingirmos que temos saúde é meio auxílio dado à saúde para que ela se estabeleça.

Pensamento positivo em 1875? Sem dúvida. Teremos evoluído muito, entretanto? Se calhar, não.

 

(80/1)

(…), o talento tenderá a abastardar-se sempre que não se inspirar no espírito nacional que o gerou.

É em tal sentido que nos parece duplamente saudável que os que viajam no verão em Portugal, os que percorrem as suas terras de caldas no interior das nossas províncias, se banhem na genuína tradição popular, o específico reconstituinte da adoentada alma portuguesa.

Como se vê, neste livro, Ramalho Ortigão também vai defendendo a ideia, comum após a industrialização, de que o campo é o território por excelência da regeneração do corpo e da alma portuguesa. Uma ideia muito defendida na altura ou à volta dessa época (lembremo-nos de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós). Esta ideia que vai continuando sempre a aflorar, aqui e ali, em diferentes épocas.

E, apesar de não haver praticamente nenhuma referência à religião, todo o livro assenta sobre uma ideia profundamente religiosa e cristã: a água como purificadora do corpo e da alma, tanto por fora como por dentro, até no próprio título – Banhos de Caldas e Águas Minerais. Eu suspeito que, se não tivéssemos este mito por detrás, este livro perderia muito da sua sedução emocional.

 

(93)

(…) A felicidade consiste em acharmos na vida um destino e em o cumprirmos sempre com dedicação, e quando for preciso – com sacrifício. Desde que a nossa existência se consagra a um fim útil – não digo a um fim brilhante – a soma de felicidade que o mundo pode repartir a cada homem basta para nossa satisfação. Byron, o altivo chefe da escola dos desdenhosos e dos enfastiados, compreendeu afinal que era o sacrifício por uma ideia elevada o que faltava à sua existência e acabou por curar o seu spleen indo bater-se pela liberdade dos gregos. Procura também tu. Ermelinda; e não deixarás de readquirir o gosto da vida, encontrando um ente vivo, uma ideia, um princípio, uma obra a que consagres essa existência, que deixará de te pesar logo que deixe de te ser inútil.

Uma receita para a felicidade que as modernas teorias de psicoterapia e da Psicologia Positiva subscreveriam sem qualquer problema: viver de acordo com um valor mais elevado a que o espírito possa aspirar.

 

Águas que ainda hoje se bebem: Pedras Salgadas (111), Vidago (119), Vimeiro (165), (com 9,5 de pH) Monchique (191)

 

(141 e seguintes)

Sobre as Caldas da Rainha, talvez o capítulo mais interessante até ao momento, Ramalho descreve com ironia, ou até mesmo escárnio, tipos e episódios típicos presentes habitualmente nestas paragens.

 

(197)

Referência breve ao caíque (não uma «lancha») com que marinheiros de Olhão foram ao Brasil dar notícia da derrota dos franceses.

 

(201 até final)

«A Volta»

Um retrato (porque não é uma história, é mais uma sucessão de imagens) muito interessante e divertido, sob a forma de enumeração de quadros muito visuais, que acompanham o movimento da memória.

Destoa positivamente do resto do livro (que mais parece um relatório que lhe poderia ter sido encomendado).

 

(205)

(…) Há talvez um marido de mau génio que ralha com a sua mulher, o que é o espetáculo mais desolador e mais antipático em que se pode cevar a melancolia e o tédio. (…)

 Isto não mudou...


(205)

A teoria do prazer é esta: que é falso e nulo todo aquele que nós não pagamos com uma quantidade proporcional de nobre e bem entendido sacrifício.

A teoria de que o verdadeiro prazer é o que se obtém à custa de sacrifício. O problema aqui é esta palavra “sacrifício”. É que ela está muito associada ao sofrimento e à infelicidade. Eu preferiria a palavra “esforço”. Mas pode ser que, na altura, fosse este um dos significados dela.

Complementarmente a esta ideia, Vergílio Ferreira dizia a 19 de Junho de 1979, no Conta-Corrente 2, p. 274:

Hoje, reunião preparatória de exames. Chacinaram-me com provas de Português Complementar e Latim. Fiquei fulo e, todavia, agradecido: não sou ainda um traste sem préstimo. Mas é sabido: tudo quanto envolve valorização, envolve necessariamente pancada. Não se é homem onde se goza, é-se só onde se apanha. Já o disse não sei onde. Resultado – uma semana ou duas de castigo à banca, para ser da Humanidade. Mas é a lei de Deus desde Adão. Cá estou para aguentar a Bíblia e as chatices que vêm nela.

 

(208)

À leitora (…), que diante da sua fotografia tirada na volta das caldas, tenhamos de exclamar todos profundamente comovidos:

- Era uma linha. É agora um novelo.

Na altura, gordura era formosura?

 

Quais as minhas impressões sobre este livro (deixarei para o fim o que nele mais me desgostou)? Ambíguas, sem dúvida. Ao longo de toda a sua leitura.

Às vezes pensava que Ramalho Ortigão estava a encorajar-me a ir às termas. Depois, vinha com aquelas descrições e números chatos de relatório de contas, e começava eu a suspeitar que ele estava no fundo a gozar comigo.

Depois, falava com entusiasmo, fosse da viagem para as termas, fosse sobre as próprias termas, e lá concluía eu de novo que me estava a encorajar. Depois, punha-se a zombar das pessoas que por lá andavam, ou seja, punha-se a gozar comigo mais uma vez (porque ele sabia que eu iria assumir que aquilo é com os outros, que não pode ser comigo… mas, muito provavelmente, é comigo mesmo!).

Depois, a parte mais literária é a que descreve A Volta, e lá senti que me estava a criar a nostalgia de lá ir, descrevendo poeticamente essa volta. Assim, acabei o livro momentaneamente pacificado com este último capítulo. Só que, quando voltei a pensar no seu todo, fiquei de novo perplexo.

Se tivesse de apostar, eu apostaria na ironia. Isto é, penso que em todo o livro Ramalho Ortigão está a usar de uma profunda e muito subtil ironia com o leitor, uma espécie de “private joke”. Aliás, logo no início com aquela gravura (e a respetiva legenda - «Coitadinhas das que ficaram na cidade… Coitadinhas!»), ele pode ter dado de facto a entender que não é disparatado pensar que o verdadeiro rio subterrâneo do livro é esta ironia.


Nota: Lamentavelmente, esta e todas as outras gravuras que faziam parte da edição original foram apagadas desta edição da Quetzal. Como se vê pelo meu raciocínio acima, elas fazem tão parte da obra como as palavras. Eliminá-las, sem um aviso nem nada, parece-me ser algo próximo de um crime à memória de Ramalho Ortigão. Para quem quiser consultar a edição original, pode recorrer à digitalização feita pelo Google que a disponibiliza gratuitamente aqui.

-

Do que gostei menos neste livro foi algo que o próprio Francisco José Viegas refere no seu prefácio, a saber, a falta de «apontamento social» (8). Por outras palavras, a crítica socioeconómica está praticamente ausente deste livro. Tirando uma breve referência às crianças:

(77)

(…) Crianças barrigudas, em camisa, cobertas de uma imundície sistemática, saem ao caminho e trotam ao vosso lado ao longo da ladeira, pedindo esmola, salmodiando padres-nossos e encomendando-se às almas do purgatório.

 

Pior ainda, é a forma insensível como fala da lavadeira (206 e 207). Pior porque ele olhou, viu e reparou (epígrafe ao Ensaio sobre a Cegueira: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»). Mas não o fez com o coração.

O relato deste episódio faz-me lembrar a falta de compaixão, e até mesmo de empatia, que leva tanta gente a contar histórias de grandes lições aprendidas com o sofrimento de outros, sem se aperceberem que nada fizeram para o minorar, vendo apenas o próprio benefício que daí tiraram.

 

Há quem diga que não devemos julgar as obras literárias com os valores do presente.

Sim, concordo, desde que nessa época não haja quem pense de forma alternativa. Mas isso há sempre, quando tratamos de seres humanos, veja-se a citação a seguir do historiador Manuel Loff (o sublinhado é meu):

[Marcelo Rebelo de Sousa] persiste num dos mais velhos erros metodológicos da leitura reacionária do passado: o de inventar um tempo em que os valores dominantes seriam tão consensuais que nenhuns outros teriam sido enunciados. Em todas as épocas os valores dominantes tiveram alternativas; todas as ordens tiveram resistência; todas as verdades do tempo tiveram quem as denunciasse. (Manuel Loff, Uma história “sem álibis nem omissões”, Público, 27 de Abril de 2021, p. 8)

E quanto ao pensamento alternativo publicado de forma organizada? Aqui é que eu penso que poderá haver épocas em que não existiam essas alternativas organizadas e publicitadas.

Porém, nenhuma destas situações se aplica a Ramalho Ortigão, escritor e jornalista. Este livro foi publicado pela primeira vez em 1875. Nesta data, já tinha sete livros publicados e imensas páginas de crítica que vieram a ser conhecidas sob o nome da sua compilação, As Farpas. Não estamos a falar de um ignorante, nem de um inculto, nem de um conformista.

Ora, o pensamento socialista começa a ser formulado e desenvolvido no séc. XVIII. Em 1875 Karl Marx está a apenas oito anos da sua morte, tendo já publicado o primeiro volume de O Capital em 1867. O Manifesto Comunista tinha sido publicado em 1848. Além disso, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) foi fundado precisamente em 1875.

Por outro lado, o pensamento filosófico anarquista começa com Pierre-Joseph Proudhon, em 1840, na sua obra O Que É a Propriedade?.

Portanto, Ramalho Ortigão tinha conhecimento de muitas alternativas de pensamento à sua disposição. Escolheu esta e não o fez a partir da ignorância. No que se refere à sensibilidade social para com os mais pobres, posso, portanto, julgá-lo com os olhos da minha época.

 

Há também quem diga que Ramalho Ortigão era um apoiante do regime e, por isso, não o criticava.

Ora, a Wikipedia diz o seguinte:

(...) Subintitulando-se "O País e a Sociedade Portuguesa", os folhetins mensais d'As Farpas constituem um painel jornalístico da sociedade portuguesa nos anos posteriores a 1870, erguido com bonomia, sentido agudo das mazelas sociais, um alto propósito consciencializador, e uma linguagem límpida e variada. (…) (Moisés, Massaud. A Língua Portuguesa através dos textos ,São Paulo, Editora Cultrix, 1ª Edição- 1968, pág.339.)

Em face disto, o argumento de conformismo face ao regime parece que também não se aplica aqui. Mas mesmo que se aplicasse, então ele deveria omitir essas situações de miséria que poderiam representar uma crítica a esse regime. Ora, ele não o fez. Ele escolheu falar delas sem qualquer olhar crítico à sociedade do seu tempo. Quando ele já tinha conhecimento de muito pensamento crítico social.

Em suma, caiu-me muito mal esta insensibilidade social à miséria, no que respeita às crianças e às mulheres.



terça-feira, 13 de abril de 2021

Somerset Maugham, O Véu Pintado


 Edição «Livros do Brasil» Lisboa, s/d
 

Eis mais uma obra que, relida agora numa idade mais sénior, se me revelou uma experiência muito inteligente e muito agradável, o que é raro de encontrar, seja em que época que o livro tenha sido escrito – ele foi publicado em 1925, ou seja, tem praticamente 100 anos! Nota-se? Na verdade, muito pouco. Em termos de factos reais, um pouco, claro; em termos de humanidade, não.

 

Este livro tem tudo o que é preciso para ser um clássico. Nomeadamente, claro, por ser uma história muitíssimo bem contada. Depois, por permitir várias releituras que, uma a uma, não deixam de nos surpreender (eu vou na 4ª leitura e parece-me sempre que tenho entre mãos um livro novo).

 

Mas também por permitir múltiplas interpretações e modos de olhar. Por exemplo, é uma obra que mostra bem o papel importantíssimo que as circunstâncias têm sobre as pessoas, desde a sua infância até à idade adulta.

Que mostra como a inteligência e a sensibilidade não passam por estudos ou saberes aprofundados; ou seja, de como uma inteligência intuitiva pode estar perfeitamente à altura de uma inteligência mais cognitiva ou académica.

Que mostra como a paixão é algo não só de mental como também de corpo; e que o nosso comportamento resulta de uma íntima interação dos dois. Aliás, o neurocientista António Damásio poderia usar este livro para ilustrar as suas conclusões. veja-se, nomeadamente, o que ele diz numa recente conferência online que ele deu, O Mundo de Amanhã — Sentir, Saber e Resistir: A Neurobiologia em Tempos de Peste:

Corpo e sistema nervoso estão interligados e têm ações recíprocas. Aquilo que se passa na mente, através do nosso sistema nervoso, responde àquilo que se está a passar no corpo. E o que está no corpo está a projetar-se naquilo que é a mente. O problema da mente e do corpo está a dissolver-se, daqui a uns anos não vai ter sentido.

O Véu Pintado é também uma obra que mostra como em todos os seres humanos, independentemente da sua nacionalidade, existe sempre um fundo de humanidade, com todas as suas falhas e glórias, em que as qualidades e os defeitos convivem nem sempre pacificamente.

Que mostra que, quando se centra o amor nas emoções mais apaixonadas, o resultado final é a maior parte das vezes desastroso. Mais especificamente, acabamos por nos ligar a alguém que nos faz mal e desprezamos aquele que nos poderia fazer realmente felizes.

Que mostra como as experiências mais marcantes para o ser humano são o amor e a morte; e que são muitas as formas como podemos integrar essas experiências nas nossas vidas.

Etc., etc.

 

Na época em que foi escrito O Véu Pintado (1925), ainda se associava uma mulher inteligente e bondosa (Somerset Maugham refere várias vezes ao longo do livro que Dorothy tem ambas estas características, bem como um «rosto simples e bondoso» ou um «rosto bondoso, trabalhado pelo tempo») a uma certa ausência de beleza.

Que digo eu? Na verdade, desde sempre se fez isso. Como todos sabemos, os contos de fadas apresentam as mulheres boas como bonitas e as más como feias. A única exceção é a rainha má da Branca de Neve; mas, mesmo aí, ninguém diz que ela é bonita, mas apenas que é bela (repare-se que há grandes diferenças entre uma mulher que é bonita, que é bela ou que é formosa).

Lembro-me de quando, adolescente, conheci pela primeira vez uma rapariga muito feia mesmo. Passado algum tempo de convívio, tive a enorme surpresa de achar que ela era realmente bonita. Porquê? Porque era uma das pessoas mais excelentes que eu tinha tido a oportunidade de conhecer até essa altura. Mas toda a cultura da época me levava a acreditar que quem era feio não podia ser nada de especial (“o rosto é o espelho da alma”, diziam-nos muito, quer as pessoas à nossa volta, quer a generalidade dos livros).

Mas, mais uma vez, que digo eu? Ainda hoje em dia, na maior parte dos filmes e séries que são feitos nos E.U.A. (os europeus, aqui, tendem a ser um bocadinho mais sábios), esta associação entre beleza e excelência de qualidades ainda é mantida.

Ora, Somerset Maugham começa a divergir destes preconceitos (e de outros, para algum escândalo na época, nomeadamente quando decide fazer uma crítica social feroz, como vemos acontecer neste livro). Por exemplo, já descreve um homem bonito e bem sucedido [Charles] como moralmente corrupto. Dorothy revela excelentes qualidades. Waddington é feio e, com as suas fraquezas, é muito perspicaz e bastante generoso.

Quanto a Kitty, Maugham descreve-a, claramente manipulada pela educação que recebeu, como inicialmente fútil e pouco inteligente (mas não propriamente uma pessoa maldosa). E apenas inicialmente. Porque assistimos nela, pela mão magistral de Maugham, a um processo interessantíssimo, doloroso e verosímil de recuperação de humanidade e de inteligência (no sentido mais nobre deste termo).

E o final do romance, não acabando mal para a heroína, na verdade, não é tão bom para ela como desejaríamos. Aliás, eu dispensaria as últimas palavras de Kitty porque são de uma banalidade demasiado teatral para o meu gosto (Maugham foi também um dramaturgo de sucesso e, aqui, neste final, assistimos a uma certa “contaminação” infeliz).

 

(141)

(…) chegava a reconhecer-lhe [a Walter] uma grandeza estranha e sem atrativos. Era curioso que não pudesse amá-lo e que ainda amasse um homem [Charles] cuja falta de valor via agora tão claramente. (…) Apenas ela não vira os seus méritos [de Walter]. Porquê? Porque a amava e ela não o amava. Havia no coração humano algo que fazia uma mulher desprezar um homem porque ele a amava? (…) ele era diferente com as mulheres: apesar da sua timidez, sentia-se nele uma delicada bondade.

(147)

(…) Era estranho que, sendo ele [Walter] tão simpático quanto honesto, digno de confiança e talentoso, ela nunca tivesse podido amá-lo. (…)

Também me tenho interrogado sobre isto tanta e tanta vez. Mais genericamente, porque é que as pessoas boas não só são menos amadas, mas chegam a ser mais desprezadas que as outras?

Bom, uma primeira resposta é que não sabemos se de facto isto é assim. Seria preciso uma investigação com caráter científico para tirar o assunto realmente a limpo.

No entanto, é uma ideia que está há muito tempo estabelecida: para uma mulher, um homem bom é um homem chato. Uma amiga minha, há muitos anos atrás, queixava-se de só ter relações amorosas complicadas e abusivas; e acrescentava, no entanto, que só a atraíam os homens que lhe davam “pica”.

E vice-versa: uma mulher boa é uma chata. Daí o fascínio das “mulheres fatais” (repare-se que não é por acaso que aparece aqui este termo “fatal”)!

Porquê? Eu também não sei responder com a segurança da verdade, mas posso dar uma explicação pessoal que será, admito-o, muito difícil de provar.

Penso que a bondade está associada na mente das pessoas, embora erradamente, a uma certa fraqueza de caráter. Portanto, nos primeiros tempos de um encontro entre duas pessoas, momentos que estabelecem o padrão do que vai ser a relação no futuro (quer consolidando-a, quer destruindo-a por se revelar como uma desilusão), se um dos parceiros se mostrar bom, ou seja, associado a fraco, (e quando alguém gosta mesmo de outro procura ser bom para ele) suscitará no outro aborrecimento; ou, na melhor das hipóteses, apenas alguma surpresa.

Ora, evolutivamente, as probabilidades de sobrevivência pessoal aumentam consideravelmente se nos associarmos a pessoas fortes, ou vistas como fortes pelos outros. Daí nos desinteressarmos quase sempre por aqueles que surgem aos nossos olhos como potencialmente fracos.

Por isso, Kitty não se apaixona por um socialmente insignificante Walter, nem quando este se revela em toda a sua bondade. Mas sente-se irresistivelmente atraída por Charles que é alguém que já é poderoso, que promete sê-lo ainda mais no futuro, e que desde o princípio revela que é o mais forte e independente na relação.

Sim, eu sei que há aqui nesta explicação um determinismo que nos revolta. Eu também sinto esse mal-estar. Mas a verdade é que temos uma genética e um corpo que nos condicionam imenso, muito para além do que desejamos ou aspiramos.

Felizmente, temos um cérebro que tem a propriedade extraordinária de estar consciente de si próprio e que, por isso, fica com alguma margem de manobra para exercer algum grau de liberdade nas escolhas que faz durante a sua vida. Se soubermos como estes processos inconscientes se desenrolam em nós, ficamos mais preparados para não nos deixarmos arrastar por eles indefesos.

 

(166)

[Madre Superiora:] (…) A beleza também é um dom de Deus, um dos mais raros e preciosos, e devemos ser gratos se temos a sorte de possuí-lo, e, se não o temos, gratos porque outros o possuam para nosso prazer.

Não sei se é um dom assim tão precioso possuir beleza. Conheci mulheres muito bonitas que me disseram que, por vezes, a sua beleza era uma maldição. Porque era como ter muito dinheiro, ficava sempre a dúvida se o amor que eles sentiam por elas era genuíno ou se era apenas uma forma de adquirir algo que podiam exibir aos outros.

Agora, quanto à parte final da afirmação, aprovo-a absolutamente e procuro viver de acordo com ela no meu dia-a-dia.

 

(192)

[Waddington:] (…) Alguns procuram o Caminho no ópio e outros em Deus, alguns no whisky e outros no amor. Tudo é o mesmo Caminho e não leva a parte alguma.

Não, possivelmente todos estes caminhos não levam a parte alguma. Porém, oferecem diferenças muito significativas enquanto são percorridos e aí está todo um mundo a separá-los entre si.

 

(218)

[Kitty:] – E se não há vida eterna? Pense no que isso representa, se a morte for realmente o fim de todas as coisas. [As freiras] Terão abandonado tudo por nada. Terão sido ludibriadas. Nada mais que tolas.

Waddington refletiu um instante.

- Não sei. Não sei se importa que seja ou não uma ilusão aquilo a que elas aspiram. As suas vidas são belas em si. Às vezes, penso que a única coisa que torna possível viver sem repugnância neste mundo é a beleza que, de quando em quando, os homens criam do caos. Os quadros que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, as vidas que levam. E em tudo isto o que encerra maior beleza é uma vida bela. Essa é que é a perfeita obra de arte.

(…)

[Waddington:] – Cada membro da orquestra toca o seu instrumento, e que sabe ele das complicadas harmonias que se desenrolam no ar indiferente? Só lhe interessa a sua pequenina parte. No entanto, sabe que a sinfonia é bela, e continua a ser bela mesmo que não haja ninguém para ouvi-la, e ele sente-se contente por tocar a sua parte.

Umas das partes mais belas e com mais significado para mim neste romance.

 

(228)

[Madre Superiora:] – Lembre-se que cumprir o seu dever não é nada, pois isso é-lhe exigido e não é mais meritório que lavar as mãos quando sujas. A única coisa que importa é o amor ao dever. Quando o amor e o dever se confundem, a graça é-lhe concedida e gozará uma felicidade que ultrapassa toda a compreensão.

Esta é a segunda parte deste romance mais bela e com mais significado para mim.

 

No todo, sem dúvida nenhuma, um excelente romance!


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Pearl S. Buck, Terra Bendita

 

Edição «Livros do Brasil» Lisboa, s/d


Eu nunca leio um prefácio antes de ler a obra, seja ele escrito pelo autor, seja por outra pessoa qualquer. Porque a maioria dos prefácios não abrem para a obra, pelo contrário delimitam-na, roubando liberdade de interpretação ao leitor que vai iniciar a sua viagem. Por exemplo, Vergílio Ferreira, para todas as suas obras, escreveu apenas um Prefácio, uma Nota Introdutória, várias Aberturas (para os livros de ensaios), e, o resto Posfácios; e eu acho que revelou muita sabedoria ao fazê-lo.

Mas, desta vez, nem sei porquê, li.

Ora, no Prefácio datado de 1949 (presente na edição de Livros do Brasil), Pearl S. Buck faz elogios superlativos ao povo chinês:

6 – Esse povo é fundamental, não apenas para a China, mas para todo o mundo.

7 – (…) conhecendo essa gente boa da terra (…) força espiritual do povo chinês (…) A vida educou-o e o tempo civilizou-o. Nem a pobreza e a desgraça, nem a corrupção dos governos e as tiranias da guerra podem degradá-lo. (…) O momento presente, este século cheio de inquietação, não poderá destruir os alicerces do passado.

8 – Pela primeira vez, após muitos anos, peguei novamente no livro para ver se estava desatualizado. (…) Mas não há dúvida de que o povo chinês é o que sempre foi. (…) Isso basta para esses homens sábios do campo. (…) O povo chinês é hoje o que foi ontem e será sempre o que tem sido até agora. (…) A democracia chinesa (…) [repousará] sobre os indivíduos paternalmente democratas, e o chefe será um homem paternal, (…)

10 – De um modo geral, os chineses constituem uma nação racionalmente adulta.

12 – Talvez eles cheguem até a salvar-nos, se permitirmos que nos salvem. (…) Wang Lung e O-lan e os seus filhos ainda vivem, e outros como eles estão a nascer todos os dias na terra chinesa.

Espero que não!

Pergunto: é desta maneira que um povo superior trata as mulheres?

Não, este povo não é sábio de todo. Não me admira, portanto, que já vá nos quase 100 anos de ditadura comunista.

Porque as sociedades onde todas as mulheres sem exceção são mais respeitadas e têm mais direitos iguais aos dos homens são as sociedades mais democráticas. Além disso, nem sequer há ditaduras de mulheres: Hitler, Estaline, Mao-Tsé-Tung, Pol Pot, Videla, etc., etc., são tudo homens. Será por acaso? Não me parece.

 

Assim, este Prefácio matou muito do prazer que eu podia tirar da leitura deste livro. Se eu não o tivesse lido, teria achado que esta era uma obra de denúncia. Denúncia de como a falta de educação para todos e de como o peso da tradição podem dar origem às sociedades mais bárbaras.

A obra deve libertar-se do seu autor e viver por si. Pearl S. Buck não deixou isso acontecer e fez mal!

Aliás, eu li este livro com os meus 15 anos e não me lembro nada de ter ficado chocado, pelo contrário, a ideia que me ficou é que a Pearl S. Buck era uma escritora “fofinha”. Só posso interpretar isto de uma forma: a cultura da época e da minha família tornava natural para mim o que esta autora descrevia nos seus livros.

Volto repetidamente a uma reflexão que me angustia: como a cultura em que vivemos nos pode cegar e nos pode levar a aceitar barbaridades como sendo coisas naturais e aceitáveis. Que barbaridades estaremos agora a fazer na nossa cultura e de que não nos damos conta?

 

Um outro problema que se me foi tornando incontornável com a leitura deste livro foi a frieza e a distância com que Pearl S. Buck narra a miséria e o sofrimento reais das personagens (embora seja generosa a descrever os sofrimentos psicológicos de Wang Lung!).

A raiz desta minha dificuldade de leitura parece-me estar no facto de que, para mim, há um antes e um depois de José Saramago e de Mia Couto. Não me é possível ler narrativas sobre pessoas pobres e humildes com os mesmos olhos com que as lia antes de José Saramago ou de Mia Couto. Porque a grande diferença entre Pearl S. Buck e estes dois escritores é que eles dão dignidade e sabedoria aos socialmente destituídos. Pearl S. Buck raramente o faz.

Recordo o que Mia Couto diz no seu livro Vozes Anoitecidas (p. 19): «O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma.»

Esta exata ignorância, não só das personagens da história que nos é contada, mas também a da própria Pearl S. Buck sobre o sofrimento das mulheres, custa-me acompanhar em Terra Bendita. A isto acrescenta-se, claro, o relato da própria miséria em si mesma que também me dói imenso. Miséria que Pearl S. Buck nos faz surgir, aliás e para mérito seu, como muito real e atual.

 

(34)

E depois envergonhava-se da sua curiosidade e do interesse que tinha por ela [O-lan]. Afinal de contas era apenas uma mulher.

Para mim, a personagem mais interessante, mais poderosa e impressionante, foi O-lan. O-lan é a personagem mais digna de todo o livro, a mais irrepreensível. Pearl S. Buck pouco nos dá a conhecer sobre ela, exceto (e raramente) quando ela serve como adereço à história de Wang Lung (como nas páginas 118 e 119, onde ele fica com pena não de O-lan, mas da filha que está a pensar vender).

Mas Pearl S. Buck não vê isso. Assim, O-lan é tratada em todo o livro pouco mais do que como um animal doméstico (lembro, por exemplo, as duas pérolas, a única “riqueza” pessoal que ela teve toda a vida e que Wang Lung lhe tirou para dar à prostituta). Com exceção de quando está a morrer, altura em que a autora põe Wang Lung a mostrar um pouco de consideração e gratidão, embora nula empatia ou afeto. Será até à morte de O-lan que me doerá muito ler este livro. Depois, as coisas melhoram e começo a tirar algum prazer da sua leitura.

 

(84)

E depois, é preciso desconfiar sempre daquilo que se não conhece ou que não se compreende. Não convém a um homem saber mais do que é preciso para a sua vida quotidiana.

Este livro devia ser obrigatório para aqueles que acham que só devem aprender o que lhes for útil para aquilo que pensam que vai ser a sua vida. Para perceberem os resultados que essa sua ideia pode trazer.

No entanto, é-me incomodativo neste livro encontrar sempre esta “filosofia” tradicional de submissão, de autodesprezo, de mesquinhez, de vistas curtas, etc. O único que tem o um assomo de algo diferente (cujas razões, aliás, a autora não se incomoda a explicar) é o filho mais novo de Wang Lung. Mesmo O-lan, que algumas vezes, poucas, tem iniciativas próprias, é sempre para bem do marido e, secundariamente, da família, mas quase nunca para ela própria.

Porque me incomoda isto? Porque Pearl S. Buck refugia-se sempre numa suposta neutralidade, ou melhor, numa completa ausência de olhar crítico. E sabemos que, quando há agressores e agredidos, ser “neutral” é pormo-nos do lado do agressor. Quando há uma tradição que tanto sofrimento causa, ser neutral é desprezar as vítimas e a sua condição.

 

(85)

- Então a pequena escrava já está morta?

Tratar as filhas por “escravas” – que horror! E a facilidade com que vendiam as filhas para a escravidão, sem nenhum sobressalto moral (apenas, às vezes, afetivo, com quem gosta de um objeto que lhe é querido, mas de que, apesar de tudo, se dispõe como se de um objeto se tratasse)!

As páginas 118 e 119 têm uma descrição atroz de como eram vistas e tratadas as mulheres e as crianças. E, note-se, Wang Lung é retratado como «um bom esposo, melhor que muitos»!

Ou ainda a página 205 e a tradição bárbara de apertar os pés das meninas desde pequeninas, com indiferença para o seu sofrimento, tanto no momento em que o faziam, como no seu futuro! E Pearl S. Buck mostra bem como o “bondoso” Wang Lung nem se apercebe desse sofrimento da filha.

Ou também a forma como aceita boamente a suposta “natureza” dos homens:

(277)

(…) com o temperamento sensual do filho, a esposa citadina que ele tinha não podia dominá-lo sempre e algum dia a natureza triunfaria nele.

em suma acredito que estas múltiplas e amaldiçoadas tradições só podem ser combatidas com eficácia através de uma revolução ou de uma educação generalizada. Mesmo assim demorando algum tempo e, às vezes, algumas gerações, infelizmente.

 

Porém, esta é uma narrativa ao gosto dos americanos: um homem que sobe a pulso na sociedade até ficar rico. Mas há três aspetos que tornam sinistra esta narrativa de sucesso e a que Pearl Buck procura não dar muito relevo:

- O roubo que Wang Lung faz na cidade do Sul, sendo esse o primeiro fator que lhe permite subir acima dos seus conterrâneos; de outra forma, numa sociedade extremamente rígida como aquela, jamais um Wang-Lung honesto sairia da sua condição.

- A proteção, paga por Wang Lung, que recebe do tio que pertence a um gangue de ladrões, sem a qual ficaria outra vez pobre (como outros ficaram).

- E o terceiro fator, O-lan, sem cujo trabalho e poupança (e pés grandes, já que os pés deformados, por serem apertados na infância, tornavam as mulheres incapazes de qualquer ajuda), ele jamais teria conseguido o que conseguiu. E aqui tem de se incluir aquilo que um chinês mais ambiciona: três filhos machos (o que ajuda a destruir o corpo de O-lan, mais uma vez chocantemente para grande desprezo e nojo do marido). Porém, para um americano, que interesse pode ter uma “loser” como O-lan, certamente vista como uma falhada?

Aliás, a progressiva aceitação desta autora por parte do regime chinês não surpreenderá demasiadamente, dado tratar-se de um regime cada vez mais neocapitalista.

Penso também que, provavelmente, uma boa parte do sucesso deste livro teve a ver com ele ter surgido durante a Grande Depressão. Talvez tenha dado esperança aos leitores. Uma estranha esperança, mas uma esperança apesar de tudo.

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