segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 9.

 (11)

Capítulo I – As sombras de um mundo fechado

9. Sem pretender efetuar uma análise exaustiva nem tomar em consideração todos os aspetos da realidade que vivemos, proponho apenas manter-nos atentos a algumas tendências do mundo atual que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal."

O convite aqui feito é simples e absolutamente nada impositivo. Como em muitas passagens desta obra, o Papa evidencia um respeito enorme pelas pessoas que o leem. Ele apenas procura incentivar-nos a dar um pouco da nossa atenção. O resultado é que nos predispomos afavelmente a fazê-lo.

Primeiro, vamos ver o que provoca o mal (a surpreendente ausência de fraternidade entre seres inteligentes e sensíveis da mesma espécie, acrescento eu) para, depois, podermos lidar com ele e superá-lo, na medida do possível.

Notemos como está subjacente a ideia de que a realidade nada tem de simples. É um bom alerta para nos precavermos contra os políticos e os poderosos que, perante qualquer realidade, fazem análises simples e propõem soluções simples. Podem ou não estar a iludir-se a si mesmos, mas estão certamente a tentar enganar-nos a todos nós.

Hoje, o link que escolhi conta um triste exemplo das dificuldades que são impostas pelos poderes europeus a quem deseja praticar a fraternidade universal: "Criminalização da solidariedade - O caso Iuventa".

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 8.

(8)

 8. Desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade. Entre todos: «Aqui está um ótimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (…); precisamos de uma comunidade que nos apoie, que nos auxilie, e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos! (…) Sozinho, corres o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos». Sonhemos como uma única Humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma Terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos.

-

NOTAS

Este parágrafo é tão bonito e tão verdadeiro que apetece não dizer mais nada e deixar estas palavras habitarem dentro de nós, sem a interferência de ruídos exteriores.

Mas sinto alguma obrigação de acrescentar algo. Quem estiver a ler é que não tem a obrigação de continuar, claro! 🙂

Sabemos várias coisas que o Papa recorda aqui.

A primeira é que, quando diminuímos a dignidade dos outros, estamos a diminuir irremediavelmente a nossa própria dignidade (se todos os que que cometem abusos sobre outras pessoas se apercebessem como perdem a sua dignidade...).

A segunda é que somos uma espécie profundamente social e que sofremos muito em isolamento. Assim, e a ciência já o demonstrou, o mais seguro contributo para a nossa felicidade são as relações profundas e significativas que estabelecemos com os outros - consulte-se o Estudo de Harvard, por exemplo: «Harvard study, almost 80 years old, has proved that embracing community helps us live longer, and be happier» (Tradução minha: "Realizado ao longo de quase 80 anos, o Estudo de Harvard provou que envolvermo-nos numa comunidade ajuda-nos a viver mais tempo e a ser mais felizes")

A terceira é que, face aos desafios que a vida nos coloca e perante os ataques feitos pelo poder ao nosso bem-estar, só juntos conseguiremos conquistar uma vida melhor para nós e para os nossos descendentes. Sozinhos, somos fracos e tendemos a desperdiçar esforços, mesmo quando realizados em direções mais frutuosas. Juntos, partilhando sonhos, aspirações e valores, é mais realizável a construção de um mundo mais fraterno para todos, sem a exclusão de ninguém, seja pela idade, pelo sexo, pela religião, pela nacionalidade, etc.

A quarta é que, com um sonho e um projeto partilhados, é mais fácil persistirmos animados a lutar por uma vida melhor para todos.

Deixo apenas um alerta.

Nem sempre juntos criamos e defendemos os melhores sonhos. Por sermos estruturalmente uma espécie social, muito ligada a grupos hierarquicamente organizados, a verdade é que somos todos facilmente manipulados e influenciados por outros, nem sempre para o bem.

A minha sugestão é que devemos ouvir o que, no nosso corpo, as nossas emoções nos dizem. Elas são a sinalização mais fiável de que estamos no caminho certo ou errado, consoante forem limpidamente positivas ou negativas. Se surgirem estas últimas, normalmente desagradáveis ou acordando coisas negras em nós, será mais benéfico que as levemos a sério e mudemos de direção ou abandonemos mesmo o caminho que estamos a seguir.


sábado, 7 de agosto de 2021

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 7.


7. Além disso, quando estava a redigir esta carta, irrompeu de forma inesperada a pandemia da Covid-19, que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto. Apesar de estarmos superconetados, verificou-se uma fragmentação que tornou mais difícil resolver os problemas que nos afetam a todos. Se alguém pensa que se tratava apenas de fazer funcionar melhor o que já fazíamos, ou que a única lição a tirar é que devemos melhorar os sistemas e regras já existentes, está a negar a realidade.

O primeiro comentário não sou eu que o escrevo. Dou a palavra a Susana Peralta (Professora de Economia na Nova SBE), no Público de 06/08/2021, pág. 13:

A Organização Mundial de Saúde tem multiplicado os apelos para não se vacinarem crianças e não haver terceira dose antes de aprovisionar os países mais pobres. (…) Mas que esta questão fundamental esteja arredada do debate só mostra que não aprendemos nada com a pandemia. É que mesmo que não queiramos ser generosos para com as pessoas dos países menos afortunados, podemos sempre pensar egoisticamente nas variantes que se poderão por lá desenvolver e cá chegarão num ápice. Não nos vão faltar enormes desafios globais para enfrentar nos próximos anos. Se não conseguirmos sair desta lógica de olharmos apenas para o nosso umbigo, estamos tramados.

Talvez seja por isto que, neste parágrafo, me parece que o Papa surge a defender, não uma revolução, pois que esta implica alguma forma de violência, mas talvez a revolta pura... Se sim, isto constitui uma medida do desespero a que a Humanidade chegou nos tempos atuais, se até o Papa entende que as velhas soluções já não podem ser melhoradas o suficiente para resolver os problemas contemporâneos (quanto mais os que sempre existiram).

De facto, o melhor talvez não seja tentar dar respostas velhas (aliás, de eficácia duvidosa; e, mesmo essa pouca eficácia vem de elas terem estado adaptadas aos contextos particulares, e passados, em que foram concretizadas) para problemas novos. Ainda por cima quando, atualmente, fazemos exigências de nível bem mais elevado para os resultados que esperamos obter.

Porém, essa busca de soluções novas não nos deve cegar para duas realidades: a) Devemos aproveitar as inequívocas boas experiências do passado. b) É prudente e sábio aprender com as que foram claramente prejudiciais, não as repetindo, nem insistindo mais nelas.

Reflitamos em como tudo isto também se aplica às nossas vidas individuais, no nosso dia-a-dia.

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 6.

 


A foto que escolhi (de Bernat Armangué) retrata a jovem voluntária da Cruz Vermelha, Luna Reyes, a ser abraçada por um imigrante senegalês em Ceuta (Maio de 2021). Diz ela (Público de 21 de Maio de 2021): 

«“Ele estava a chorar, eu dei-lhe a minha mão e ele abraçou-me”, disse Luna Reyes ao canal de televisão espanhol RTVE. “Ele agarrou-se a mim. Esse abraço foi um salva-vidas. (...) Eu só lhe dei um abraço. Abraçar alguém que pede ajuda é a coisa mais normal do mundo.”»


(8)

6. As páginas seguintes não pretendem resumir a doutrina sobre o amor fraterno, mas detêm-se na sua dimensão universal, na sua abertura a todos. Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas atuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras. Embora a tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade.

Aquela foto constituiu o exemplo mais belo e recente de que me lembrei para ilustrar como se pode fazer do amor um lugar de irradiação duradoura, como uma luz que ilumina todos sem distinções de qualquer tipo.

Faz desanimar como vão sempre surgindo e se multiplicam, tal como as cabeças da Hidra de Lerna,  as «formas atuais de eliminar ou ignorar os outros», bem como as formas de rejeitar, excluir e lançar para as margens aqueles que decidimos arbitrariamente que “não merecem outra coisa”.

As respostas antigas estão a perder força e a perder eficácia. É preciso descobrir um sonho novo (e uma prática renovada). O Papa diz que esse sonho novo se constrói com a prática, mas esta não é suficiente, claro. Para além dela (e ela é absolutamente necessária), é de facto preciso um sonho unificador e inspirador de todos os esforços, que os una num mesmo sentido, com um significado profundo para a maior parte das pessoas (pelo menos, as de boa vontade), mas especialmente para os jovens (que ainda não têm nem as defesas nem a sabedoria que nós, mais velhos, temos).

Finalmente, com estes apontamentos, respondo ao convite à reflexão que o Papa faz a todos nós, neste parágrafo.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 5.

 


(7)

5. As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupações. A elas me referi repetidamente nos últimos anos e em vários lugares. Nesta encíclica, quis reunir muitas dessas intervenções, situando-as num contexto mais amplo de reflexão. Além disso, se na redação da Laudato si’ tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei (*), em Abu Dhabi, para lembrar que Deus «criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e chamou-os a conviver entre si como irmãos». Não se tratou de mero ato diplomático, mas de uma reflexão feita em diálogo e de um compromisso conjunto. Esta encíclica reúne e desenvolve grandes temas expostos naquele documento (**) que assinámos juntos. E aqui, na minha linguagem própria, acolhi também numerosas cartas e documentos com reflexões que recebi de tantas pessoas e grupos de todo o mundo.

(*) em 2019

(**) "Fraternidade humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum", Paulinas Editora

A foto deste encontro, a que o Papa se refere neste parágrafo, mostra algo que me comove muito. Esclareço porquê: dois seres humanos, com imperfeições pessoais que podem ser publicamente testemunhadas por todos, representando duas religiões/igrejas também com falhas (e que se guerrearam mutuamente durante séculos), a encontrarem-se para chegarem a uma declaração de humanidade comum que possa servir de guia para toda a gente de boa vontade no mundo. Pensando bem, é extraordinário!

Quanto ao parágrafo 5. em si:

Por várias razões, considero muito sábia e compassiva a proposta de juntar estas três condições de igualdade original dos seres humanos.

  • Primeiro, porque sem dignidade não há direitos que mereçam esse nome.
  • Segundo, porque sem dignidade nem direitos não se pode eticamente exigir deveres. Ou seja, não pode haver igualdade de deveres, quando ela não existe nos direitos e na dignidade. E muito menos exigir mais deveres para quem tem menos dignidade e direitos (que é o que, infelizmente, acontece mais vezes do que desejaríamos).
  • Terceiro, porque é uma triste e revoltante evidência que, mesmo com igualdade na dignidade (pelo menos, da material), há quem tenha mais direitos do que deveres (os ricos e poderosos) e quem tenha mais deveres do que direitos (os que não têm poder nem riqueza).

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 4.



(6)

4. [São Francisco de Assis] Não fazia guerra dialética impondo doutrinas, mas comunicava o amor de Deus; compreendera que «Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus» (1Jo 4,16). Assim foi pai fecundo que suscitou o sonho de uma sociedade fraterna, pois «só o homem que aceita aproximar-se das outras pessoas com o seu próprio movimento, não para retê-las no que é seu, mas para ajudá-las a serem mais elas mesmas, é que se torna realmente pai». Naquele mundo cheio de torreões de vigia e muralhas defensivas, as cidades viviam guerras sangrentas entre famílias poderosas, ao mesmo tempo que cresciam as áreas miseráveis das periferias excluídas. Lá, Francisco recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos. Foi ele que motivou estas páginas.

Ajudar as pessoas «a serem mais elas mesmas» pode incluir facilitar-lhes o acesso e o desenvolvimento tanto dos seus potenciais preferidos, como do melhor e do mais elevado de si mesmos (o que implica, claro, centrarmo-nos mais nas necessidades dos outros do que nas nossas).

Parece-me ser também esta a intenção do Papa Francisco, nesta encíclica, que passa por também suscitar «o sonho de uma sociedade fraterna».
Julgo ser importante fazermos nosso este sonho; ou, pelo menos, têrmo-lo sempre presente no nosso espírito, à medida que vamos lendo este texto. Porque, assim, é mais fácil decidir em consciência o que as palavras lidas vão gerar, fazer crescer, alimentar e desenvolver no mais íntimo de nós próprios.

Finalmente, questiono-me se, para haver fraternidade, terá de haver uma «harmonia com todos.» Não penso assim. A fraternidade constrói-se em cada dia trabalhando juntos para um bem comum a todos. E isso é melhor feito com a contribuição variada e, às vezes, conflituosa de toda a gente. Acredito que estes conflitos (desde que sejam de ideias e não se tornem pessoalizados) podem trazer uma maior riqueza ao projeto comum. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Papa Francisco, Fratelli Tutti, 3.

 


(6)

Sem fronteiras

3. Na sua vida [de São Francisco Assis], há um episódio que nos mostra o seu coração sem fronteiras, capaz de superar as distâncias de proveniência, nacionalidade, cor ou religião: é a sua visita ao Sultão Malik-al-Kamil, no Egito. A mesma exigiu dele um grande esforço, devido à sua pobreza, aos poucos recursos que possuía, à distância e às diferenças de língua, cultura e religião. Aquela viagem, num momento histórico marcado pelas Cruzadas, demonstrava ainda mais a grandeza do amor que queria viver, desejoso de abraçar a todos. A fidelidade ao seu Senhor era proporcional ao amor que nutria pelos irmãos e irmãs. Sem ignorar as dificuldades e perigos, São Francisco foi ao encontro do Sultão com a mesma atitude que pedia aos seus discípulos: sem negar a própria identidade, quando estiverdes «entre sarracenos e outros infiéis (...), não façais litígios nem contendas, mas sede submissos a toda a criatura humana por amor de Deus». No contexto de então, era um pedido extraordinário. É impressionante que, há oitocentos anos, Francisco recomende evitar toda a forma de agressão ou contenda e também viver uma «submissão» humilde e fraterna, mesmo com quem não partilhasse a sua fé.

Uma extraordinária recomendação, sem dúvida. Porque este é o melhor caminho para convencer quem achamos que não tem razão e que está demasiado apegado a uma crença perniciosa.

Habitualmente, as pessoas nesta situação vivem no medo e é este que mais as faz agarrarem-se a uma ilusão.

Se as criticamos, ou mostramos de alguma forma que elas não pertencem ou estão em risco de deixar de pertencer ao grupo (seja dos amigos, seja das pessoas racionais, boas, etc.), então elas vão sentir-se ainda mais inseguras e ansiosas, pelo que aferrar-se-ão ainda mais à sua crença (que, aliás, surgiu na sua mente para lhes aliviar o mal-estar).

Se lhes apresentamos provas de que a sua crença está errada, cria-se-lhes uma dissonância cognitiva que as pessoas muitas vezes (principalmente, se a crença é profunda e forte) resolvem aderindo ainda mais acriticamente à crença original, negando vivamente quaisquer evidências contrárias.

Então, segundo a Psicologia, como conseguir mudar a opinião dos outros? Ouvindo-os plenamente, mostrando um interesse genuíno em compreender, aceitando o que nos é dito, fazendo perguntas abertas sobre o que nos suscita realmente a curiosidade e que possam levar o outro a refletir (mas sem crítica nem agressividade, seja explícita, seja escondida).

Julian Barnes – O Papagaio de Flaubert

  Quetzal, 2019 Julian Barnes é o mais continental dos escritores anglo-saxónicos. Entre outras coisas, vê-se isso pelo fascínio que ele dem...