sexta-feira, 30 de abril de 2021

Ramalho Ortigão, Banhos de Caldas e Águas Minerais

 

Quetzal Editores, 2019


Este livro parece ser um roteiro destinado a quem nunca frequentou estes sítios ou a quem já os frequenta, mas quer saber mais pormenores. E Ramalho mostra que não se poupou a esforços: viajou muito, recorreu com abundância a relatórios de análises clínicas e a livros de defensores das qualidades terapêuticas das águas.

Um primeiro aspeto curioso deste livro reside nalgumas considerações de saúde muito pertinentes e que fazem todo o sentido ainda hoje. Por exemplo:

(23)

Portanto, a primeira coisa que importa fazer ao ir para as Caldas é consultar um bom médico.

 

(23)

(…) Combater, ainda que o mais cientificamente possível, todos os pequenos sintomas irregulares do organismo é tirar à natureza os seus meios de prover à nossa conservação. Em muitos casos, em que a febre é um meio de cura empregado pela natureza, combater a febre é matar o doente. (…)

Esta ideia já é compreendida na medicina física, embora não aceite pelas pessoas: talvez por isso, ainda é brutal a quantidade de medicamentos que o doente exige do médico e que este muitas vezes prescreve às dúzias. Veja-se o livro Less Medicine, More Health, escrito por um médico, professor de medicina e investigador, H. Gilbert Welch.

 

(23)

Igual perigo em atacar os sintomas ostensivos em vez da verdadeira causa do mal em muitas outras enfermidades e principalmente nas doenças do coração.

Só uma interrogação: porque é que ainda hoje não se segue isto na doença mental? Porque é que na doença mental tratamos os sintomas? Por exemplo, se a pessoa se sente deprimida, dá-se-lhe um antidepressivo. Eis um excelente exemplo de como as ideias científicas fazem muito lentamente o seu caminho na sociedade.

 

(24)

(…) a [intervenção - está no original e “caiu” nesta edição] terapêutica compromete o sucesso da cura, sendo o método expectante da escola de Viena o que mais convém à vida do enfermo.

Deu-me vontade de rir a expressão usada: “método expectante”. Vontade de rir pela formulação, pois a ideia que ela expressa parece-me corretíssima (ver livro de H. Gilbert Welch acima referido).

 

Ramalho Ortigão até diz como o médico deve fazer em relação à doença física:

(24)

A obrigação de um médico moderno é socorrer-se de todos os meios de investigação que hoje lhe prestam as ciências positivas, conhecer inteiramente, até onde elas estão descobertas pela fisiologia, as funções de cada órgão, penetrar pela percussão, pela auscultação, pelo exame das secreções, pelo movimento das artérias, pela temperatura exata do corpo, nas profundidades do organismo humano, até descobrir através dos variados e complexos sintomas da doença a causa latente que a determina.

 

(38)

(…); assim o fingirmos que temos saúde é meio auxílio dado à saúde para que ela se estabeleça.

Pensamento positivo em 1875? Sem dúvida. Teremos evoluído muito, entretanto? Se calhar, não.

 

(80/1)

(…), o talento tenderá a abastardar-se sempre que não se inspirar no espírito nacional que o gerou.

É em tal sentido que nos parece duplamente saudável que os que viajam no verão em Portugal, os que percorrem as suas terras de caldas no interior das nossas províncias, se banhem na genuína tradição popular, o específico reconstituinte da adoentada alma portuguesa.

Como se vê, neste livro, Ramalho Ortigão também vai defendendo a ideia, comum após a industrialização, de que o campo é o território por excelência da regeneração do corpo e da alma portuguesa. Uma ideia muito defendida na altura ou à volta dessa época (lembremo-nos de A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós). Esta ideia que vai continuando sempre a aflorar, aqui e ali, em diferentes épocas.

E, apesar de não haver praticamente nenhuma referência à religião, todo o livro assenta sobre uma ideia profundamente religiosa e cristã: a água como purificadora do corpo e da alma, tanto por fora como por dentro, até no próprio título – Banhos de Caldas e Águas Minerais. Eu suspeito que, se não tivéssemos este mito por detrás, este livro perderia muito da sua sedução emocional.

 

(93)

(…) A felicidade consiste em acharmos na vida um destino e em o cumprirmos sempre com dedicação, e quando for preciso – com sacrifício. Desde que a nossa existência se consagra a um fim útil – não digo a um fim brilhante – a soma de felicidade que o mundo pode repartir a cada homem basta para nossa satisfação. Byron, o altivo chefe da escola dos desdenhosos e dos enfastiados, compreendeu afinal que era o sacrifício por uma ideia elevada o que faltava à sua existência e acabou por curar o seu spleen indo bater-se pela liberdade dos gregos. Procura também tu. Ermelinda; e não deixarás de readquirir o gosto da vida, encontrando um ente vivo, uma ideia, um princípio, uma obra a que consagres essa existência, que deixará de te pesar logo que deixe de te ser inútil.

Uma receita para a felicidade que as modernas teorias de psicoterapia e da Psicologia Positiva subscreveriam sem qualquer problema: viver de acordo com um valor mais elevado a que o espírito possa aspirar.

 

Águas que ainda hoje se bebem: Pedras Salgadas (111), Vidago (119), Vimeiro (165), (com 9,5 de pH) Monchique (191)

 

(141 e seguintes)

Sobre as Caldas da Rainha, talvez o capítulo mais interessante até ao momento, Ramalho descreve com ironia, ou até mesmo escárnio, tipos e episódios típicos presentes habitualmente nestas paragens.

 

(197)

Referência breve ao caíque (não uma «lancha») com que marinheiros de Olhão foram ao Brasil dar notícia da derrota dos franceses.

 

(201 até final)

«A Volta»

Um retrato (porque não é uma história, é mais uma sucessão de imagens) muito interessante e divertido, sob a forma de enumeração de quadros muito visuais, que acompanham o movimento da memória.

Destoa positivamente do resto do livro (que mais parece um relatório que lhe poderia ter sido encomendado).

 

(205)

(…) Há talvez um marido de mau génio que ralha com a sua mulher, o que é o espetáculo mais desolador e mais antipático em que se pode cevar a melancolia e o tédio. (…)

 Isto não mudou...


(205)

A teoria do prazer é esta: que é falso e nulo todo aquele que nós não pagamos com uma quantidade proporcional de nobre e bem entendido sacrifício.

A teoria de que o verdadeiro prazer é o que se obtém à custa de sacrifício. O problema aqui é esta palavra “sacrifício”. É que ela está muito associada ao sofrimento e à infelicidade. Eu preferiria a palavra “esforço”. Mas pode ser que, na altura, fosse este um dos significados dela.

Complementarmente a esta ideia, Vergílio Ferreira dizia a 19 de Junho de 1979, no Conta-Corrente 2, p. 274:

Hoje, reunião preparatória de exames. Chacinaram-me com provas de Português Complementar e Latim. Fiquei fulo e, todavia, agradecido: não sou ainda um traste sem préstimo. Mas é sabido: tudo quanto envolve valorização, envolve necessariamente pancada. Não se é homem onde se goza, é-se só onde se apanha. Já o disse não sei onde. Resultado – uma semana ou duas de castigo à banca, para ser da Humanidade. Mas é a lei de Deus desde Adão. Cá estou para aguentar a Bíblia e as chatices que vêm nela.

 

(208)

À leitora (…), que diante da sua fotografia tirada na volta das caldas, tenhamos de exclamar todos profundamente comovidos:

- Era uma linha. É agora um novelo.

Na altura, gordura era formosura?

 

Quais as minhas impressões sobre este livro (deixarei para o fim o que nele mais me desgostou)? Ambíguas, sem dúvida. Ao longo de toda a sua leitura.

Às vezes pensava que Ramalho Ortigão estava a encorajar-me a ir às termas. Depois, vinha com aquelas descrições e números chatos de relatório de contas, e começava eu a suspeitar que ele estava no fundo a gozar comigo.

Depois, falava com entusiasmo, fosse da viagem para as termas, fosse sobre as próprias termas, e lá concluía eu de novo que me estava a encorajar. Depois, punha-se a zombar das pessoas que por lá andavam, ou seja, punha-se a gozar comigo mais uma vez (porque ele sabia que eu iria assumir que aquilo é com os outros, que não pode ser comigo… mas, muito provavelmente, é comigo mesmo!).

Depois, a parte mais literária é a que descreve A Volta, e lá senti que me estava a criar a nostalgia de lá ir, descrevendo poeticamente essa volta. Assim, acabei o livro momentaneamente pacificado com este último capítulo. Só que, quando voltei a pensar no seu todo, fiquei de novo perplexo.

Se tivesse de apostar, eu apostaria na ironia. Isto é, penso que em todo o livro Ramalho Ortigão está a usar de uma profunda e muito subtil ironia com o leitor, uma espécie de “private joke”. Aliás, logo no início com aquela gravura (e a respetiva legenda - «Coitadinhas das que ficaram na cidade… Coitadinhas!»), ele pode ter dado de facto a entender que não é disparatado pensar que o verdadeiro rio subterrâneo do livro é esta ironia.


Nota: Lamentavelmente, esta e todas as outras gravuras que faziam parte da edição original foram apagadas desta edição da Quetzal. Como se vê pelo meu raciocínio acima, elas fazem tão parte da obra como as palavras. Eliminá-las, sem um aviso nem nada, parece-me ser algo próximo de um crime à memória de Ramalho Ortigão. Para quem quiser consultar a edição original, pode recorrer à digitalização feita pelo Google que a disponibiliza gratuitamente aqui.

-

Do que gostei menos neste livro foi algo que o próprio Francisco José Viegas refere no seu prefácio, a saber, a falta de «apontamento social» (8). Por outras palavras, a crítica socioeconómica está praticamente ausente deste livro. Tirando uma breve referência às crianças:

(77)

(…) Crianças barrigudas, em camisa, cobertas de uma imundície sistemática, saem ao caminho e trotam ao vosso lado ao longo da ladeira, pedindo esmola, salmodiando padres-nossos e encomendando-se às almas do purgatório.

 

Pior ainda, é a forma insensível como fala da lavadeira (206 e 207). Pior porque ele olhou, viu e reparou (epígrafe ao Ensaio sobre a Cegueira: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»). Mas não o fez com o coração.

O relato deste episódio faz-me lembrar a falta de compaixão, e até mesmo de empatia, que leva tanta gente a contar histórias de grandes lições aprendidas com o sofrimento de outros, sem se aperceberem que nada fizeram para o minorar, vendo apenas o próprio benefício que daí tiraram.

 

Há quem diga que não devemos julgar as obras literárias com os valores do presente.

Sim, concordo, desde que nessa época não haja quem pense de forma alternativa. Mas isso há sempre, quando tratamos de seres humanos, veja-se a citação a seguir do historiador Manuel Loff (o sublinhado é meu):

[Marcelo Rebelo de Sousa] persiste num dos mais velhos erros metodológicos da leitura reacionária do passado: o de inventar um tempo em que os valores dominantes seriam tão consensuais que nenhuns outros teriam sido enunciados. Em todas as épocas os valores dominantes tiveram alternativas; todas as ordens tiveram resistência; todas as verdades do tempo tiveram quem as denunciasse. (Manuel Loff, Uma história “sem álibis nem omissões”, Público, 27 de Abril de 2021, p. 8)

E quanto ao pensamento alternativo publicado de forma organizada? Aqui é que eu penso que poderá haver épocas em que não existiam essas alternativas organizadas e publicitadas.

Porém, nenhuma destas situações se aplica a Ramalho Ortigão, escritor e jornalista. Este livro foi publicado pela primeira vez em 1875. Nesta data, já tinha sete livros publicados e imensas páginas de crítica que vieram a ser conhecidas sob o nome da sua compilação, As Farpas. Não estamos a falar de um ignorante, nem de um inculto, nem de um conformista.

Ora, o pensamento socialista começa a ser formulado e desenvolvido no séc. XVIII. Em 1875 Karl Marx está a apenas oito anos da sua morte, tendo já publicado o primeiro volume de O Capital em 1867. O Manifesto Comunista tinha sido publicado em 1848. Além disso, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) foi fundado precisamente em 1875.

Por outro lado, o pensamento filosófico anarquista começa com Pierre-Joseph Proudhon, em 1840, na sua obra O Que É a Propriedade?.

Portanto, Ramalho Ortigão tinha conhecimento de muitas alternativas de pensamento à sua disposição. Escolheu esta e não o fez a partir da ignorância. No que se refere à sensibilidade social para com os mais pobres, posso, portanto, julgá-lo com os olhos da minha época.

 

Há também quem diga que Ramalho Ortigão era um apoiante do regime e, por isso, não o criticava.

Ora, a Wikipedia diz o seguinte:

(...) Subintitulando-se "O País e a Sociedade Portuguesa", os folhetins mensais d'As Farpas constituem um painel jornalístico da sociedade portuguesa nos anos posteriores a 1870, erguido com bonomia, sentido agudo das mazelas sociais, um alto propósito consciencializador, e uma linguagem límpida e variada. (…) (Moisés, Massaud. A Língua Portuguesa através dos textos ,São Paulo, Editora Cultrix, 1ª Edição- 1968, pág.339.)

Em face disto, o argumento de conformismo face ao regime parece que também não se aplica aqui. Mas mesmo que se aplicasse, então ele deveria omitir essas situações de miséria que poderiam representar uma crítica a esse regime. Ora, ele não o fez. Ele escolheu falar delas sem qualquer olhar crítico à sociedade do seu tempo. Quando ele já tinha conhecimento de muito pensamento crítico social.

Em suma, caiu-me muito mal esta insensibilidade social à miséria, no que respeita às crianças e às mulheres.



terça-feira, 13 de abril de 2021

Somerset Maugham, O Véu Pintado


 Edição «Livros do Brasil» Lisboa, s/d
 

Eis mais uma obra que, relida agora numa idade mais sénior, se me revelou uma experiência muito inteligente e muito agradável, o que é raro de encontrar, seja em que época que o livro tenha sido escrito – ele foi publicado em 1925, ou seja, tem praticamente 100 anos! Nota-se? Na verdade, muito pouco. Em termos de factos reais, um pouco, claro; em termos de humanidade, não.

 

Este livro tem tudo o que é preciso para ser um clássico. Nomeadamente, claro, por ser uma história muitíssimo bem contada. Depois, por permitir várias releituras que, uma a uma, não deixam de nos surpreender (eu vou na 4ª leitura e parece-me sempre que tenho entre mãos um livro novo).

 

Mas também por permitir múltiplas interpretações e modos de olhar. Por exemplo, é uma obra que mostra bem o papel importantíssimo que as circunstâncias têm sobre as pessoas, desde a sua infância até à idade adulta.

Que mostra como a inteligência e a sensibilidade não passam por estudos ou saberes aprofundados; ou seja, de como uma inteligência intuitiva pode estar perfeitamente à altura de uma inteligência mais cognitiva ou académica.

Que mostra como a paixão é algo não só de mental como também de corpo; e que o nosso comportamento resulta de uma íntima interação dos dois. Aliás, o neurocientista António Damásio poderia usar este livro para ilustrar as suas conclusões. veja-se, nomeadamente, o que ele diz numa recente conferência online que ele deu, O Mundo de Amanhã — Sentir, Saber e Resistir: A Neurobiologia em Tempos de Peste:

Corpo e sistema nervoso estão interligados e têm ações recíprocas. Aquilo que se passa na mente, através do nosso sistema nervoso, responde àquilo que se está a passar no corpo. E o que está no corpo está a projetar-se naquilo que é a mente. O problema da mente e do corpo está a dissolver-se, daqui a uns anos não vai ter sentido.

O Véu Pintado é também uma obra que mostra como em todos os seres humanos, independentemente da sua nacionalidade, existe sempre um fundo de humanidade, com todas as suas falhas e glórias, em que as qualidades e os defeitos convivem nem sempre pacificamente.

Que mostra que, quando se centra o amor nas emoções mais apaixonadas, o resultado final é a maior parte das vezes desastroso. Mais especificamente, acabamos por nos ligar a alguém que nos faz mal e desprezamos aquele que nos poderia fazer realmente felizes.

Que mostra como as experiências mais marcantes para o ser humano são o amor e a morte; e que são muitas as formas como podemos integrar essas experiências nas nossas vidas.

Etc., etc.

 

Na época em que foi escrito O Véu Pintado (1925), ainda se associava uma mulher inteligente e bondosa (Somerset Maugham refere várias vezes ao longo do livro que Dorothy tem ambas estas características, bem como um «rosto simples e bondoso» ou um «rosto bondoso, trabalhado pelo tempo») a uma certa ausência de beleza.

Que digo eu? Na verdade, desde sempre se fez isso. Como todos sabemos, os contos de fadas apresentam as mulheres boas como bonitas e as más como feias. A única exceção é a rainha má da Branca de Neve; mas, mesmo aí, ninguém diz que ela é bonita, mas apenas que é bela (repare-se que há grandes diferenças entre uma mulher que é bonita, que é bela ou que é formosa).

Lembro-me de quando, adolescente, conheci pela primeira vez uma rapariga muito feia mesmo. Passado algum tempo de convívio, tive a enorme surpresa de achar que ela era realmente bonita. Porquê? Porque era uma das pessoas mais excelentes que eu tinha tido a oportunidade de conhecer até essa altura. Mas toda a cultura da época me levava a acreditar que quem era feio não podia ser nada de especial (“o rosto é o espelho da alma”, diziam-nos muito, quer as pessoas à nossa volta, quer a generalidade dos livros).

Mas, mais uma vez, que digo eu? Ainda hoje em dia, na maior parte dos filmes e séries que são feitos nos E.U.A. (os europeus, aqui, tendem a ser um bocadinho mais sábios), esta associação entre beleza e excelência de qualidades ainda é mantida.

Ora, Somerset Maugham começa a divergir destes preconceitos (e de outros, para algum escândalo na época, nomeadamente quando decide fazer uma crítica social feroz, como vemos acontecer neste livro). Por exemplo, já descreve um homem bonito e bem sucedido [Charles] como moralmente corrupto. Dorothy revela excelentes qualidades. Waddington é feio e, com as suas fraquezas, é muito perspicaz e bastante generoso.

Quanto a Kitty, Maugham descreve-a, claramente manipulada pela educação que recebeu, como inicialmente fútil e pouco inteligente (mas não propriamente uma pessoa maldosa). E apenas inicialmente. Porque assistimos nela, pela mão magistral de Maugham, a um processo interessantíssimo, doloroso e verosímil de recuperação de humanidade e de inteligência (no sentido mais nobre deste termo).

E o final do romance, não acabando mal para a heroína, na verdade, não é tão bom para ela como desejaríamos. Aliás, eu dispensaria as últimas palavras de Kitty porque são de uma banalidade demasiado teatral para o meu gosto (Maugham foi também um dramaturgo de sucesso e, aqui, neste final, assistimos a uma certa “contaminação” infeliz).

 

(141)

(…) chegava a reconhecer-lhe [a Walter] uma grandeza estranha e sem atrativos. Era curioso que não pudesse amá-lo e que ainda amasse um homem [Charles] cuja falta de valor via agora tão claramente. (…) Apenas ela não vira os seus méritos [de Walter]. Porquê? Porque a amava e ela não o amava. Havia no coração humano algo que fazia uma mulher desprezar um homem porque ele a amava? (…) ele era diferente com as mulheres: apesar da sua timidez, sentia-se nele uma delicada bondade.

(147)

(…) Era estranho que, sendo ele [Walter] tão simpático quanto honesto, digno de confiança e talentoso, ela nunca tivesse podido amá-lo. (…)

Também me tenho interrogado sobre isto tanta e tanta vez. Mais genericamente, porque é que as pessoas boas não só são menos amadas, mas chegam a ser mais desprezadas que as outras?

Bom, uma primeira resposta é que não sabemos se de facto isto é assim. Seria preciso uma investigação com caráter científico para tirar o assunto realmente a limpo.

No entanto, é uma ideia que está há muito tempo estabelecida: para uma mulher, um homem bom é um homem chato. Uma amiga minha, há muitos anos atrás, queixava-se de só ter relações amorosas complicadas e abusivas; e acrescentava, no entanto, que só a atraíam os homens que lhe davam “pica”.

E vice-versa: uma mulher boa é uma chata. Daí o fascínio das “mulheres fatais” (repare-se que não é por acaso que aparece aqui este termo “fatal”)!

Porquê? Eu também não sei responder com a segurança da verdade, mas posso dar uma explicação pessoal que será, admito-o, muito difícil de provar.

Penso que a bondade está associada na mente das pessoas, embora erradamente, a uma certa fraqueza de caráter. Portanto, nos primeiros tempos de um encontro entre duas pessoas, momentos que estabelecem o padrão do que vai ser a relação no futuro (quer consolidando-a, quer destruindo-a por se revelar como uma desilusão), se um dos parceiros se mostrar bom, ou seja, associado a fraco, (e quando alguém gosta mesmo de outro procura ser bom para ele) suscitará no outro aborrecimento; ou, na melhor das hipóteses, apenas alguma surpresa.

Ora, evolutivamente, as probabilidades de sobrevivência pessoal aumentam consideravelmente se nos associarmos a pessoas fortes, ou vistas como fortes pelos outros. Daí nos desinteressarmos quase sempre por aqueles que surgem aos nossos olhos como potencialmente fracos.

Por isso, Kitty não se apaixona por um socialmente insignificante Walter, nem quando este se revela em toda a sua bondade. Mas sente-se irresistivelmente atraída por Charles que é alguém que já é poderoso, que promete sê-lo ainda mais no futuro, e que desde o princípio revela que é o mais forte e independente na relação.

Sim, eu sei que há aqui nesta explicação um determinismo que nos revolta. Eu também sinto esse mal-estar. Mas a verdade é que temos uma genética e um corpo que nos condicionam imenso, muito para além do que desejamos ou aspiramos.

Felizmente, temos um cérebro que tem a propriedade extraordinária de estar consciente de si próprio e que, por isso, fica com alguma margem de manobra para exercer algum grau de liberdade nas escolhas que faz durante a sua vida. Se soubermos como estes processos inconscientes se desenrolam em nós, ficamos mais preparados para não nos deixarmos arrastar por eles indefesos.

 

(166)

[Madre Superiora:] (…) A beleza também é um dom de Deus, um dos mais raros e preciosos, e devemos ser gratos se temos a sorte de possuí-lo, e, se não o temos, gratos porque outros o possuam para nosso prazer.

Não sei se é um dom assim tão precioso possuir beleza. Conheci mulheres muito bonitas que me disseram que, por vezes, a sua beleza era uma maldição. Porque era como ter muito dinheiro, ficava sempre a dúvida se o amor que eles sentiam por elas era genuíno ou se era apenas uma forma de adquirir algo que podiam exibir aos outros.

Agora, quanto à parte final da afirmação, aprovo-a absolutamente e procuro viver de acordo com ela no meu dia-a-dia.

 

(192)

[Waddington:] (…) Alguns procuram o Caminho no ópio e outros em Deus, alguns no whisky e outros no amor. Tudo é o mesmo Caminho e não leva a parte alguma.

Não, possivelmente todos estes caminhos não levam a parte alguma. Porém, oferecem diferenças muito significativas enquanto são percorridos e aí está todo um mundo a separá-los entre si.

 

(218)

[Kitty:] – E se não há vida eterna? Pense no que isso representa, se a morte for realmente o fim de todas as coisas. [As freiras] Terão abandonado tudo por nada. Terão sido ludibriadas. Nada mais que tolas.

Waddington refletiu um instante.

- Não sei. Não sei se importa que seja ou não uma ilusão aquilo a que elas aspiram. As suas vidas são belas em si. Às vezes, penso que a única coisa que torna possível viver sem repugnância neste mundo é a beleza que, de quando em quando, os homens criam do caos. Os quadros que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem, as vidas que levam. E em tudo isto o que encerra maior beleza é uma vida bela. Essa é que é a perfeita obra de arte.

(…)

[Waddington:] – Cada membro da orquestra toca o seu instrumento, e que sabe ele das complicadas harmonias que se desenrolam no ar indiferente? Só lhe interessa a sua pequenina parte. No entanto, sabe que a sinfonia é bela, e continua a ser bela mesmo que não haja ninguém para ouvi-la, e ele sente-se contente por tocar a sua parte.

Umas das partes mais belas e com mais significado para mim neste romance.

 

(228)

[Madre Superiora:] – Lembre-se que cumprir o seu dever não é nada, pois isso é-lhe exigido e não é mais meritório que lavar as mãos quando sujas. A única coisa que importa é o amor ao dever. Quando o amor e o dever se confundem, a graça é-lhe concedida e gozará uma felicidade que ultrapassa toda a compreensão.

Esta é a segunda parte deste romance mais bela e com mais significado para mim.

 

No todo, sem dúvida nenhuma, um excelente romance!


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Pearl S. Buck, Terra Bendita

 

Edição «Livros do Brasil» Lisboa, s/d


Eu nunca leio um prefácio antes de ler a obra, seja ele escrito pelo autor, seja por outra pessoa qualquer. Porque a maioria dos prefácios não abrem para a obra, pelo contrário delimitam-na, roubando liberdade de interpretação ao leitor que vai iniciar a sua viagem. Por exemplo, Vergílio Ferreira, para todas as suas obras, escreveu apenas um Prefácio, uma Nota Introdutória, várias Aberturas (para os livros de ensaios), e, o resto Posfácios; e eu acho que revelou muita sabedoria ao fazê-lo.

Mas, desta vez, nem sei porquê, li.

Ora, no Prefácio datado de 1949 (presente na edição de Livros do Brasil), Pearl S. Buck faz elogios superlativos ao povo chinês:

6 – Esse povo é fundamental, não apenas para a China, mas para todo o mundo.

7 – (…) conhecendo essa gente boa da terra (…) força espiritual do povo chinês (…) A vida educou-o e o tempo civilizou-o. Nem a pobreza e a desgraça, nem a corrupção dos governos e as tiranias da guerra podem degradá-lo. (…) O momento presente, este século cheio de inquietação, não poderá destruir os alicerces do passado.

8 – Pela primeira vez, após muitos anos, peguei novamente no livro para ver se estava desatualizado. (…) Mas não há dúvida de que o povo chinês é o que sempre foi. (…) Isso basta para esses homens sábios do campo. (…) O povo chinês é hoje o que foi ontem e será sempre o que tem sido até agora. (…) A democracia chinesa (…) [repousará] sobre os indivíduos paternalmente democratas, e o chefe será um homem paternal, (…)

10 – De um modo geral, os chineses constituem uma nação racionalmente adulta.

12 – Talvez eles cheguem até a salvar-nos, se permitirmos que nos salvem. (…) Wang Lung e O-lan e os seus filhos ainda vivem, e outros como eles estão a nascer todos os dias na terra chinesa.

Espero que não!

Pergunto: é desta maneira que um povo superior trata as mulheres?

Não, este povo não é sábio de todo. Não me admira, portanto, que já vá nos quase 100 anos de ditadura comunista.

Porque as sociedades onde todas as mulheres sem exceção são mais respeitadas e têm mais direitos iguais aos dos homens são as sociedades mais democráticas. Além disso, nem sequer há ditaduras de mulheres: Hitler, Estaline, Mao-Tsé-Tung, Pol Pot, Videla, etc., etc., são tudo homens. Será por acaso? Não me parece.

 

Assim, este Prefácio matou muito do prazer que eu podia tirar da leitura deste livro. Se eu não o tivesse lido, teria achado que esta era uma obra de denúncia. Denúncia de como a falta de educação para todos e de como o peso da tradição podem dar origem às sociedades mais bárbaras.

A obra deve libertar-se do seu autor e viver por si. Pearl S. Buck não deixou isso acontecer e fez mal!

Aliás, eu li este livro com os meus 15 anos e não me lembro nada de ter ficado chocado, pelo contrário, a ideia que me ficou é que a Pearl S. Buck era uma escritora “fofinha”. Só posso interpretar isto de uma forma: a cultura da época e da minha família tornava natural para mim o que esta autora descrevia nos seus livros.

Volto repetidamente a uma reflexão que me angustia: como a cultura em que vivemos nos pode cegar e nos pode levar a aceitar barbaridades como sendo coisas naturais e aceitáveis. Que barbaridades estaremos agora a fazer na nossa cultura e de que não nos damos conta?

 

Um outro problema que se me foi tornando incontornável com a leitura deste livro foi a frieza e a distância com que Pearl S. Buck narra a miséria e o sofrimento reais das personagens (embora seja generosa a descrever os sofrimentos psicológicos de Wang Lung!).

A raiz desta minha dificuldade de leitura parece-me estar no facto de que, para mim, há um antes e um depois de José Saramago e de Mia Couto. Não me é possível ler narrativas sobre pessoas pobres e humildes com os mesmos olhos com que as lia antes de José Saramago ou de Mia Couto. Porque a grande diferença entre Pearl S. Buck e estes dois escritores é que eles dão dignidade e sabedoria aos socialmente destituídos. Pearl S. Buck raramente o faz.

Recordo o que Mia Couto diz no seu livro Vozes Anoitecidas (p. 19): «O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma.»

Esta exata ignorância, não só das personagens da história que nos é contada, mas também a da própria Pearl S. Buck sobre o sofrimento das mulheres, custa-me acompanhar em Terra Bendita. A isto acrescenta-se, claro, o relato da própria miséria em si mesma que também me dói imenso. Miséria que Pearl S. Buck nos faz surgir, aliás e para mérito seu, como muito real e atual.

 

(34)

E depois envergonhava-se da sua curiosidade e do interesse que tinha por ela [O-lan]. Afinal de contas era apenas uma mulher.

Para mim, a personagem mais interessante, mais poderosa e impressionante, foi O-lan. O-lan é a personagem mais digna de todo o livro, a mais irrepreensível. Pearl S. Buck pouco nos dá a conhecer sobre ela, exceto (e raramente) quando ela serve como adereço à história de Wang Lung (como nas páginas 118 e 119, onde ele fica com pena não de O-lan, mas da filha que está a pensar vender).

Mas Pearl S. Buck não vê isso. Assim, O-lan é tratada em todo o livro pouco mais do que como um animal doméstico (lembro, por exemplo, as duas pérolas, a única “riqueza” pessoal que ela teve toda a vida e que Wang Lung lhe tirou para dar à prostituta). Com exceção de quando está a morrer, altura em que a autora põe Wang Lung a mostrar um pouco de consideração e gratidão, embora nula empatia ou afeto. Será até à morte de O-lan que me doerá muito ler este livro. Depois, as coisas melhoram e começo a tirar algum prazer da sua leitura.

 

(84)

E depois, é preciso desconfiar sempre daquilo que se não conhece ou que não se compreende. Não convém a um homem saber mais do que é preciso para a sua vida quotidiana.

Este livro devia ser obrigatório para aqueles que acham que só devem aprender o que lhes for útil para aquilo que pensam que vai ser a sua vida. Para perceberem os resultados que essa sua ideia pode trazer.

No entanto, é-me incomodativo neste livro encontrar sempre esta “filosofia” tradicional de submissão, de autodesprezo, de mesquinhez, de vistas curtas, etc. O único que tem o um assomo de algo diferente (cujas razões, aliás, a autora não se incomoda a explicar) é o filho mais novo de Wang Lung. Mesmo O-lan, que algumas vezes, poucas, tem iniciativas próprias, é sempre para bem do marido e, secundariamente, da família, mas quase nunca para ela própria.

Porque me incomoda isto? Porque Pearl S. Buck refugia-se sempre numa suposta neutralidade, ou melhor, numa completa ausência de olhar crítico. E sabemos que, quando há agressores e agredidos, ser “neutral” é pormo-nos do lado do agressor. Quando há uma tradição que tanto sofrimento causa, ser neutral é desprezar as vítimas e a sua condição.

 

(85)

- Então a pequena escrava já está morta?

Tratar as filhas por “escravas” – que horror! E a facilidade com que vendiam as filhas para a escravidão, sem nenhum sobressalto moral (apenas, às vezes, afetivo, com quem gosta de um objeto que lhe é querido, mas de que, apesar de tudo, se dispõe como se de um objeto se tratasse)!

As páginas 118 e 119 têm uma descrição atroz de como eram vistas e tratadas as mulheres e as crianças. E, note-se, Wang Lung é retratado como «um bom esposo, melhor que muitos»!

Ou ainda a página 205 e a tradição bárbara de apertar os pés das meninas desde pequeninas, com indiferença para o seu sofrimento, tanto no momento em que o faziam, como no seu futuro! E Pearl S. Buck mostra bem como o “bondoso” Wang Lung nem se apercebe desse sofrimento da filha.

Ou também a forma como aceita boamente a suposta “natureza” dos homens:

(277)

(…) com o temperamento sensual do filho, a esposa citadina que ele tinha não podia dominá-lo sempre e algum dia a natureza triunfaria nele.

em suma acredito que estas múltiplas e amaldiçoadas tradições só podem ser combatidas com eficácia através de uma revolução ou de uma educação generalizada. Mesmo assim demorando algum tempo e, às vezes, algumas gerações, infelizmente.

 

Porém, esta é uma narrativa ao gosto dos americanos: um homem que sobe a pulso na sociedade até ficar rico. Mas há três aspetos que tornam sinistra esta narrativa de sucesso e a que Pearl Buck procura não dar muito relevo:

- O roubo que Wang Lung faz na cidade do Sul, sendo esse o primeiro fator que lhe permite subir acima dos seus conterrâneos; de outra forma, numa sociedade extremamente rígida como aquela, jamais um Wang-Lung honesto sairia da sua condição.

- A proteção, paga por Wang Lung, que recebe do tio que pertence a um gangue de ladrões, sem a qual ficaria outra vez pobre (como outros ficaram).

- E o terceiro fator, O-lan, sem cujo trabalho e poupança (e pés grandes, já que os pés deformados, por serem apertados na infância, tornavam as mulheres incapazes de qualquer ajuda), ele jamais teria conseguido o que conseguiu. E aqui tem de se incluir aquilo que um chinês mais ambiciona: três filhos machos (o que ajuda a destruir o corpo de O-lan, mais uma vez chocantemente para grande desprezo e nojo do marido). Porém, para um americano, que interesse pode ter uma “loser” como O-lan, certamente vista como uma falhada?

Aliás, a progressiva aceitação desta autora por parte do regime chinês não surpreenderá demasiadamente, dado tratar-se de um regime cada vez mais neocapitalista.

Penso também que, provavelmente, uma boa parte do sucesso deste livro teve a ver com ele ter surgido durante a Grande Depressão. Talvez tenha dado esperança aos leitores. Uma estranha esperança, mas uma esperança apesar de tudo.

domingo, 28 de março de 2021

Mia Couto, O Último Voo do Flamingo

 


Editorial Caminho, 2000


(17)

Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la.

À maneira de Saramago, Mia Couto cria e reinventa ditos populares e provérbios. Mais exemplos que me agradaram:

(18)

Homem mucoso, subserviente - um engraxa-botas. Como todo o agradista: submisso com os grandes, arrogante com os pequenos. O fulano me fingia desconhecer, ocupado em suas superiores aparências. Ainda tentei um aperto de mão, mas logo ele foi atalhando o tempo. O burro, na companhia do leão, já não cumprimenta o cavalo.

(19)

Ouvimos, calamos e fazemos de conta que, calados, obedecemos.

(A mim rapidamente me transportou para a Cantata De Paz, de Sophia de Mello Breyner Andresen: Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar)

 

(43)

Sem que desse conta eu me abria e confessava antigas lembranças ao estrangeiro. Vantagem de um estranho é que confiamos essa mentira de termos uma só alma.

Sim, quando contamos a nossa história a outros, fazemo-lo como se fosse uma só história e como se fossemos uma só pessoa. Na verdade, várias histórias fluem simultaneamente: o que eu faço, o que eu digo, o que eu olho, o que dou atenção, o que penso, o que sinto, e talvez mais, mais.

Ao mesmo tempo, este “eu” não é um, mas vários (e não, não são apenas os três – porquê sempre três? – de que a psicologia normalmente fala: consciente, pré-consciente e inconsciente; superego, Ego e Id; eu conceptualizado, eu como processo de contínua autoconsciencialização e eu observador(1); Exilados, Gerentes e Bombeiros (classes de partes protetoras da teoria dos Sistemas Familiares Internos / Internal Family Systems)(2); etc., etc.)

(1)Hayes, Steven C. (2005). Get Out of Your Mind and Into Your Life: The New Acceptance and Commitment Therapy / Steven Hayes & Spencer Smith. Oakland: New Harbinger Publications, Inc., p. 107

(2)Richard C. Schwartz (2001). Introduction to the Internal Family Systems Model. Oak Park: Trailheads Publications, p. 89.

 

(47)

A vida é assim: peixe vivo, mas que só vive no correr da água. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo do tempo, falo da água.

Tudo o que é verdadeiramente vivo, quando o tentamos prender, até mesmo por algo tão volátil como as palavras, principia a morrer. Por exemplo, quando escrevo, tudo parece iluminado; depois, torna-se baço, obscuro e, algumas vezes, incompreensível.

Ou quando leio da segunda, da terceira vez, tudo tende a perder vida – aqui só sobrevive a grande obra que, lida infinitas vezes, é sempre uma nova obra que lemos de cada vez que a lemos. Exemplos? Para mim, Aparição, Manhã Submersa, Cântico Final, Para Sempre, no fundo, todos os livros de Vergílio Ferreira (que ando há mais de 40 anos a (re)ler). Como esta é a segunda vez, e talvez não seja a última, que leio este livro de Mia Couto, agora com um encantamento muito mais acrescido, possivelmente também este autor será um exemplo a juntar a Vergílio Ferreira.

 

(48)

- A ideia lhe poise como a garça: só com uma perna. Que é para não pesar no coração.

A maior parte das ideias que nos cruzam o espírito não são propriamente criativas e libertadoras; logo, não são leves e, pior, tendem a grudar-se-nos. O seu peso vai ficando cada vez mais mortal. Se elas voassem…

 

(49)

Naquele tempo, não havia antigamentes. Tudo para mim era recente, em via de nascer.

Sim, o narrador está a falar da sua infância e juventude. Mas se nós pudéssemos ter esta atitude face à vida? Será possível consegui-lo? Talvez parcialmente. Não em todos os momentos. Não com aquela absoluta inocência da infância. Mas parcialmente. Talvez esta seja uma das fontes ou uma das vias que a vida nos disponibiliza para a felicidade.

 

(50)

A escola foi para mim como um barco: me dava acesso a outros mundos. Contudo, aquele ensinamento não me totalizava. Ao contrário: mais eu aprendia, mais eu sufocava. Ainda me demorei por anos, ganhando saberes precisos e preciosos.

Um excelente retrato do que a escola representa ou devia representar para a maioria das pessoas. Por muito que ela dê (e dá imenso), há sempre algo mais que temos de acrescentar com a nossa curiosidade, a nossa iniciativa e o nosso esforço.

 

(51)

A morte é uma brevíssima varanda. Dali se espreita o tempo como a águia se debruça no penhasco - em volta todo o espaço se pode converter em esplêndida voação.

Eu espero que a minha morte seja assim. A dos outros já sei que não me é.

 

(61)

Porque o ser negro - ter aquela raça - nos tinha sido passado como nossa única e última riqueza. E alguns de nós fabricavam sua identidade nesse ilusório espelho.

Exatamente! Se eu fundo a minha identidade no ser negro, como muitos cada vez mais querem fazer (até o tradutor de um escritor negro tem de ser negro!), então estou a dar razão aos racistas que defendem que cores da pele diferentes dão origem a identidades diferentes, logo a grupos humanos diferentes. E já sabemos onde é que isto nos leva: o ser humano, com a sua atração por hierarquias e competições, vai logo querer diferenciar entre os superiores e os inferiores. Ora os superiores têm uma tendência destrutiva para serem sempre os que têm mais força e mais poder… Vale a pena?

 

(81)

- Tenho saudades de minha casa, lá na Itália.

- Também eu gostava de ter um lugarzinho meu, onde pudesse chegar e me aconchegar.

- Não tem, Ana?

- Não tenho? Não temos, todas nós, as mulheres.

- Como não?

- Vocês, homens, vêm para casa.

Nós somos a casa.

(Extrato de um diálogo entre o italiano e Deusqueira)


(110)

- Outra coisa: o senhor pergunta demais. A verdade foge de muita pergunta.

Mia Couto usa também muito o paradoxo.

(111)

Os factos só são verdadeiros / depois de serem inventados. (Crença de Tizangara)

(145)

A vida é um beijo doce em boca amarga.

(Depoimento do feiticeiro)

 

(114)

(…) Os novos chefes pareciam pouco importados com a sorte dos outros. Eu falava do que assistia, ali em Tizangara. Do resto não tinha pronunciamento. Mas, na minha vila, havia agora tanta injustiça quanto no tempo colonial. Parecia de outro modo que esse tempo não terminara. Estava era sendo gerido por pessoas de outra raça.

(…) Aqueles que nos comandavam, em Tizangara, engordavam a espelhos vistos, roubavam terras aos camponeses, se embebedavam sem respeito. A inveja era seu maior mandamento. Mas a terra é um ser: carece de família, desse tear de entrexistências a que chamamos ternura. Os novos-ricos se passeavam em território de rapina, não tinham pátria. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos. Eu sentia saudade dos outros que eles já tinham sido. Porque, afinal, eram ricos sem riqueza nenhuma. Se iludiam tendo uns carros, uns brilhos de gasto fácil. Falavam mal dos estrangeiros, durante o dia. De noite, se ajoelhavam a seus pés, trocando favores por migalhas. Queriam mandar, sem governar. Queriam enriquecer, sem trabalhar.

Uma constante neste livro, repetido de maneiras diferentes e a diferentes vozes, esta desilusão e este desencanto dolorosamente cínico com a governação e com as chefias.

 

(141)

Quando chegaram os da Revolução eles disseram que íamos ficar donos e mandantes. Todos se contentaram. Minha mãe, muito ela se contentou. Sulplício, porém, se encheu de medo. Matar o patrão? Mais difícil é matar o escravo que vive dentro de nós. Agora, nem patrão nem escravo.

- Só mudamos de patrão.

Este é um livro claramente político, sem deixar de ter muitas outras componentes. Mas aqui a voz mais presente ao longo de todo o livro parece ser a da revolta (política).

Esta ideia de que existe sempre um escravo à espreita dentro de nós talvez tenha uma base evolucionista: nós somos uma espécie muito social, facto fundamental para a nossa sobrevivência como espécie. Já que, individualmente, somos excessivamente frágeis em relação a um número demasiado grande de predadores. Ou seja, sem exceção, todos precisarmos muito uns dos outros para sobreviver.

 

(157)

Porque esses chefes deviam ser grandes como árvore que dá sombra. Mas têm mais raiz que folha. Tiram muito e dão pouco.

 

(158)

Falam muito de colonialismo. Mas isso foi coisa que eu duvido que houvesse. O que fizeram esses brancos foi ocuparem-nos. Não foi só a terra: ocuparam-nos a nós, acamparam no meio das nossas cabeças. Somos madeira que apanhou chuva. Agora não acendemos nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda não há. Esse sol só pode nascer dentro de nós.

 

(184)

Porque aqui você precisa de calar a sua sabedoria para sobreviver. Conhece a diferença entre o sábio branco e o sábio preto? A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre nós o mais sábio é aquele que mais demora a responder. Alguns são tão sábios que nunca respondem.

Eu demoro tempo a responder quando penso na pergunta. Quando sei alguma coisa, pouco ou mesmo nada, ou não ouvi bem a pergunta, é quando respondo mais depressa. Habitualmente, demoro mais quando sei muito.

 

(192)

- Nisso se engana. Não é a paz que lhe interessa. Eles se preocupam é com a ordem, o regime desse mundo.

- Ora, pai...

- O problema deles é manter a ordem que lhes faz serem patrões. Essa ordem é uma doença em nossa história.

Sim, a ordem que permite a omnipresença da injustiça e, principalmente, a possibilidade de os mais fortes continuarem a abocanhar impunemente o que é dos mais fracos; ou melhor, o que é de todos.

 

(193)

- Antigamente, queríamos ser civilizados. Agora queremos ser modernos.

Ou estar à moda. Ou ser adorado pelo grupo. Estamos a infantilizar-nos, cada vez mais adolescentes da vida, escolhendo não crescer, pensando talvez que enganamos a morte. Só nos enganamos a nós mesmos. E, infelizmente, também mais mal-educados e menos corteses – como adolescentes e, tal como eles, não necessariamente por mal.

 

 

Palavras proferidas por Mia Couto na entrega do Prêmio Mário António, da Fundação Calouste Gulbenkian, em 12 de junho de 2001

O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência - a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos. O avanço desses comedores de nações obriga-nos a nós, escritores, a um crescente empenho moral. Contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos, contra os que têm as mãos manchadas de sangue, contra a mentira, o crime e o medo, contra tudo isso se deve erguer a palavra dos escritores.

Esse compromisso para com a minha terra e o meu tempo guiou não apenas este livro como os romances anteriores. Em todos eles me confrontei com os mesmos demônios e entendi inventar o mesmo território de afeto, onde seja possível refazer crenças e reparar o rasgão do luto em nossas vidas.

(…)

É uma resposta pouca perante os fazedores de guerra e construtores da miséria. Mas é aquele que sei e posso, aquela em que apostei a minha vida e o meu tempo de viver.

Lembro, a fechar, as palavras do feiticeiro Zeca Andorinho: “Somos madeira que apanhou chuva. Agora não acendemos nem damos sombra. Temos que secar à luz de um sol que ainda há. E esse sol só pode nascer dentro de nós”.

 

Conclusões

A impressão dominante é a de um livro bonito, poético, embora carregado de tristeza, de desencanto e de desilusão.

Um livro claramente político, de denúncia e de revolta. E com razão: Moçambique é o 5º país mais pobre do mundo (mail da UNICEF Portugal recebido a 23/03/2021):

*Fonte: Banco Mundial, 2019

O recurso a uma linguagem poética, cheia de ternura, mas que ao mesmo tempo “abriga” a violência da traição dos compatriotas moçambicanos que prolongam a exploração do povo à boa maneira colonialista. Por isso, estamos sempre a oscilar entre o enternecimento e o horror. Escrita incómoda.

Mia Couto introduz nesta ficção por várias vezes a chaga do racismo: Estevão Jonas, o administrador, que se auto-apelida de “racista étnico”; Hortênsia, que se diz demasiado negra e por isso não foi levada; padre Muhanda contra o ódio aos mulatos; a rejeição do italiano por ser branco – mas não pelas mulheres, Temporina e Ana Deusqueira.

O que me leva a um outro tema deste livro: as mulheres. Sempre menos bem tratadas pelos homens, embora a esperança de Mia Couto numa mudança positiva pareça assentar principalmente sobre elas.

Aliás, há um misto de resignação e de medo neste livro, mas também de incitamento (principalmente, por via das mulheres, até a mulher do administrador) à intervenção, à mudança, acabando por se transmitir, assim, uma mensagem de esperança no futuro.



quarta-feira, 3 de março de 2021

1 - Clarice Lispector, A Hora da Estrela - Notas gerais

 https://aedmoodle.ufpa.br/pluginfile.php/305284/mod_resource/content/2/Lispector_1999_Estrela.pdf


(publicado no ano em que morreu, 1977, tinha 57 anos)


Nota prévia: As considerações sobre esta obra vão distribuir-se por três posts, dada a sua extensão. A ordem como vão aparecer ao leitor no blog acompanha a forma como eu as escrevi e desejo que sejam lidas.

 

Trata-se de um romance-reflexão, pois cada título, cada frase é um apelo suave de Clarice Lispector à nossa reflexão; tão suave que, na maior parte das vezes, numa primeira leitura, passa muita coisa despercebida. Além disso, não reflete até ao fim, até à resolução da reflexão, deixa nas nossas mãos continuar e concluir a reflexão. Por isso, às vezes, parece difícil a leitura.

Clarice não escreve a história, é a personagem Rodrigo que o faz. Pelo que se poderá pensar que Macabéa não existe, ou que existe em todos nós (como é sugerido no livro). Ou seja, Macabéa é uma criação e, portanto, um símbolo.

São também reflexões que não obedecem muitas vezes nem à racionalidade nem à lógica, andando por territórios mais ou menos indefinidos de uma forma que só posso chamar de livre. Por isso, tudo parece confuso e desorganizado. O que é intencional:

(43) Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns difíceis termos técnicos? Mas aí que está: esta história não tem nenhuma técnica, nem estilo, ela é ao deus-dará. Eu que também não marcharia [mancharia] por nada deste mundo com palavras brilhantes e falsas uma vida parca como a da datilógrafa. Durante o dia eu faço, como todos, gestos despercebidos por mim mesmo. Pois um dos gestos mais despercebidos é esta história de que não tenho culpa e que sai como sair.

 

As reflexões partem de uma matriz que é o questionamento sobre a escrita, o escritor, a palavra, o real e a ficção: tudo o resto (e é muito!) nasce daqui. Porque a história de Macabéa praticamente não existe, ou, se existe, é completamente banal. Mas não é banal se considerarmos outras histórias, também a do escritor e a da escrita, por exemplo.

Mas ainda podemos acrescentar a história da própria Clarice que estamos sempre a tentar adivinhar atrás desta outras histórias. Adivinhar, até porque ela esconde-se por detrás de um escritor masculino, como que a querer criar uma distância entre ela e o narrador, para não confundirmos os dois.

 

Porque é escrita esta história?

(26) (…) preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. (…) (26/27) Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.

Sim, minha força está na solidão. (…)

Clarice parece estar a dizer que a necessidade de escrever nasce da sua solidão que é também a de Macabéa. Será que podemos assumir que Macabéa é um dos alter egos da autora, por isso ela sufoca, ela acusa, e a única saída é esvaziar-se escrevendo?

 

Mas não se trata só de uma catarse, pois é indubitável que Clarice revela aqui uma chaga social: na figura de Macabéa vemos como a sociedade (principalmente, quando os direitos das crianças são letra morta e o ensino não é nem público nem obrigatório) encarcera e consome quem é pobre.

(23) Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiram como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?

Clarice alerta-nos, assim, para o desamparo dos mais desprotegidos.

No entanto, o nome de Macabéa sugere o símbolo de resistência a quem a quer destruir (Macabeus, Matatias pai e Judas Macabeu filho na resistência vitoriosa contra o Império Selêucida).

Embora, na Apresentação, Clarisse Fukelman diga: (13) O próprio nome adverte para um contrasenso, pois ela em nada se aproxima da índole heróica dos macabeus, povo guerreiro na história dos hebreus.

Não concordo. Pelo contrário, devo dizer que esta resistência foi um dos aspetos que mais me tocou nesta narrativa. Nem a morte chegou a derrotá-la! Admito, no entanto, que Macabéa seja a perfeita anti-heroína, verdadeira representante da nossa irrelevância numa sociedade onde as máquinas se vão sobrepondo a pouco e pouco ao humano. Assim, não é fácil encontrar a heroicidade não imediatamente evidente de Macabéa. Como diz Clarisse Fukelman: (12) Macabéa, em tudo e por tudo, é o oposto do herói épico. Sua trajetória e vida aponta para a inviabilidade dos grandes feitos na sociedade moderna.

 

Onde se percebe claramente a excecionalidade de Macabéa não é nas descrições que Rodrigo faz dela. Mas, sim, nos diálogos, onde ela revela uma inteligência ímpar e acutilante.

 

De um ponto de vista mais psicológico, este livro mostra também muito claramente como a infância condiciona e chega a determinar em muitos aspetos a idade adulta. Principalmente, as estratégias de defesa encontradas nessa época da vida que se irão mantendo, com adaptações, poucas, ao longo da vida.

 

Mas há um aspeto que mais me marcou nas duas leituras que fiz: a atração da autora pela fealdade. 

Clarice anda à volta da fealdade, como uma borboleta à volta da chama de uma vela. Fealdade («feiúra»), mas destinada a fazer brilhar a humanidade e a inocência de Macabéa (que a sociedade que a rodeia trata como culpa) como é na noite escura que uma luz mais brilha, na formulação feliz de Vergílio Ferreira?

Está aqui, de certa forma, o mito de Pigmalião, mas de alguma forma invertido. O mito é o do artista-escultor que se enamora pela sua obra-estátua, desejando obsessivamente que ela adquira vida. O estranho é aparecer aqui com uma semelhança apenas inicial, talvez só para podermos identificar o mito. Rodrigo é Pigmalião e Macabéa é a sua criação que ele ama, claro. A partir daqui, no mito, a estátua vive, na novela Rodrigo mata Macabéa. A estátua é belíssima, Macabéa é feia. Afrodite dá a vida, a vidente arrasta-a para a morte.


É verdade que o projeto de escrita de Clarice pode ser este: fazer um relato emocionado, mas com contenção da emoção. (22) Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio.

Só que uma coisa é um relato frio, outra são os insultos que o relato dirige a Macabéa. Eis alguns exemplos:

(33) Olhou-se e levemente pensou: tão jovem e já com ferrugem. (35) Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. (…) Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. (…) (36) A mulherice só lhe nasceria tarde porque até no capim vagabundo há desejo de sol. (37) Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável. (…) dir-se-ia que havia brotado da terra do sertão em cogumelo logo mofado. (43) (…) ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. (45) É que lhe faltava gordura e seu organismo estava seco que nem saco meio vazio de torrada esfarelada. (57) Você tem cara de quem comeu e não gostou, (…). (63) E como já foi dito ou não foi dito Macabéa tinha ovários murchos como um cogumelo cozido. (64) – Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer.

Não gosto desta linguagem crua, choca-me, usada para estar sempre a diminuir a personagem. Além disso, com esta linguagem carregada emocionalmente negativa, não será verdade que, assim, Clarice/Rodrigo falta à promessa de «um relato que desejo frio»?

É certo que, mais à frente, Rodrigo avisa e reconhece: (40) (Eu bem avisei que era literatura de cordel, embora eu me recuse a ter qualquer piedade); e Eu bem sei que dizer que a datilógrafa tem o corpo cariado é um dizer de brutalidade pior que qualquer palavrão.

No entanto, depois, é capaz de expressões de enorme delicadeza: (54) – Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta? / Ela ficou de cabeça inclinada para o ombro assim como uma pomba fica triste.

Aliás Rodrigo diz em (72) Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela.

Sabemos do lugar-comum de que se não faz arte com bons sentimentos. Não é verdade, claro, basta pensarmos em algumas canções e músicas: Grândola, Vila Morena; Beds are Burning; Biko; etc. Mas também é verdade que, desta forma, Rodrigo e Macabéa permanecem muito mais tempo nas nossas mentes por esta dualidade de amor e ódio de Rodrigo por Macabéa.

 

Ao ler este livro, surge-nos a sensação simultânea de estranhamento e familiaridade ao mesmo tempo? Sim, porque a história é banal, mas há muito que eu não entendo. Mas Clarice disse que gostava de não entender. E convida-nos talvez a participar desse gosto.


Estas são algumas leituras que me provocou este texto. Mas ficou-me a impressão de que algumas outras ficaram de reserva para surgirem em posteriores leituras (fiz duas seguidas; na verdade, Clarice diz, numa entrevista de 1977, a última que deu, que «Parece que eu ganho na releitura»). Aliás, porque não há a sensação de estar datado? Porque Clarice questiona aqui o humano no ser humano e isso é absolutamente intemporal na literatura.

Ou seja, fiquei com a impressão de que este é um texto que nunca se acaba realmente de ler. E que nunca desaparece da paisagem do nosso espírito…

2 - Clarice Lispector, A Hora da Estrela - Notas específicas a citações

 https://aedmoodle.ufpa.br/pluginfile.php/305284/mod_resource/content/2/Lispector_1999_Estrela.pdf


Apresentação (por Clarisse Fukelman)

(4)

(…) existe algo de novo para além do insólito prefácio, em forma de dedicatória, da frouxidão do enredo, da mescla de linguagem sutil com um tom desnudo e cru ou, ainda, da intimidade com que o choque social é apresentado.

Sim, não é pela história que nós ficamos presos a esta novela (uma semelhança com VF), porque ela praticamente não existe ou é completamente banal.

 

(4)

(…) estórias que se entrecruzam, como num acorde musical: a da vida de Macabéa, imigrante nordestina que vive desajustada no Rio de Janeiro; a do Autor do livro que, embora sem rosto definido, se dá a conhecer nos comentários que faz; e ainda a estória do próprio ato de escrever.

 

(4)

(…) múltiplas e complexas relações: entre escritor e seu texto, entre escritor e seu público, entre escritor e esta personagem tão distante do seu universo.

 

(6)

(…) “Tudo começa com um sim”, o narrador revela que sabe que as coisas se criam por um ato de vontade e de afirmação.

 

(7)

(…) condição essencial do ser: aprender a si mesmo inclui o confronto com o outro.

Embora isto vá contra o que diz a psicologia oriental.

 

(8)

(…) denuncia a mentira de uma palavra transparente, “verdadeira”, usada como forma de comunicação entre os homens e do homem consigo mesmo. Essa trajetória aproxima Clarice Lispector de outros escritores modernos, como Fernando Pessoa [e VF], que colocaram sob suspeita a comunicação direta.

 

(17)

(…) verbos dedicar e dedicar-se que etimologicamente significam, o primeiro deles, dizer para e o segundo, dizer através de si para.

 

 

Dedicatória

 

Quem escreve é a personagem Rodrigo S.M. (22)

 

(20)

Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta.

 

(21)

Tudo no mundo começou com um sim.

Toda a história começa com um sim?

 

(21)

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

“Escrevo-vos uma longa carta porque não tenho tempo de a escrever breve.” Voltaire

 

(21)

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever.

A interrogação de Vergílio Ferreira

 

(21)

Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?

Por onde posso começar uma história, ainda que seja a minha, se eu sei que a genética tem um peso de 50% naquilo que sou e que faço? Onde está o início dos genes e onde está a história aí?

É verdade que suspeito que os cientistas avançam com o número demasiadamente redondo de 50% porque não sabem muito bem qual ele é, na realidade. Além disso, devem (e com razão) ter medo que seja mais e que isso dê razão aos que não querem ter limites para maltratar os outros. Podem falar de si próprios, dizendo que o fazem por causa dos seus genes (“Eu sou assim e não há nada a fazer”). Ainda podem alegar que, de qualquer modo, se os genes é que contam, então os outros safam-se ou não, tendo pouco a ver com o que lhes é feito (“Eles são assim”). Ou seja, podem ficar com uma dupla desculpa para a sua maldade.

 

(21)

A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique.

Vergílio Ferreira faz disto tema de romances, por exemplo, no Para Sempre.

 

(22)

Se há veracidade nela – é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.

Poeta fingidor? De qualquer modo, Clarice propõe aqui estimular a nossa empatia e diz como o podemos fazer.

 

(22)

(…) uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.

"Há dias em que a melancolia chove dentro de nós como num pátio interior, atapetado de jornais velhos. Não se ouve, não se sente - mas rebrilha na sujidade densa." Retalhos da Vida de um Médico – Fernando Namora

 

(23)

Porque há o direito ao grito.

Então eu grito.

Tantas interseções e tangentes à obra de Vergílio Ferreira!

 

(23)

Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas.

Ironia de Clarice: lacrimejar, até pode, mas qualquer pessoa que considere o mundo real com objetividade sabe que o homem se deixa arrastar mais pelas emoções do que as mulheres: estão aí os assassinatos por ciúmes a mostrá-lo!

 

(24)

Assim é que esta história será feita de palavras que se agrupam em frases e destas se evola um sentido secreto que ultrapassa palavras e frases.

Vergílio Ferreira refere muitas vezes o espírito que atravessa os materiais da obra de arte e que vai muito para além destes.

 

(24)

Desculpai-me mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido, e ao escrever me surpreendo um pouco pois descobri que tenho um destino. Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?

Eu já me perguntei, sim. É por isso que, às vezes, precisamos de saber que outros passam pelo mesmo que nós, para não nos sentirmos uns monstros esquisitos. Ou precisamos de baixar o nosso “eu ideal” para um tamanho mais realista. Ou, no caso de realmente falharmos muito, termos um pouco mais de compaixão connosco próprios.

 

(25)

Quem se indaga é incompleto.

Ou o contrário? Ou ambos? A interrogação, marca do especificamente humano, como Vergílio Ferreira defendia.

 

(25)

Sei que cada dia é um dia roubado da morte.

Então a pergunta é: o que posso fazer deste dia, o que é importante para mim hoje?

 

(25/26)

Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. E o que escrevo é uma névoa úmida. As palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. Mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor. Alegro com brio. Tentarei tirar ouro do carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio. Este livro é uma pergunta.

Sempre as reflexões à volta da palavra e da sua ausência. No fundo, o que Clarice – ou Rodrigo – deseja é escrever o livro total, que inclua tudo.

 

(26)

Mas desconfio que toda essa conversa é feita apenas para adiar a pobreza da história, pois estou com medo. Antes de ter surgido na minha vida essa datilógrafa, eu era um homem até mesmo um pouco contente, apesar do mau êxito na minha literatura. As coisas estavam de algum modo tão boas que podiam se tornar muito ruins porque o que amadurece plenamente pode apodrecer.

Transgredir, porém, os meus próprios limites me fascinou de repente. E foi quando pensei em escrever sobre a realidade, já que essa me ultrapassa. Qualquer que seja o que quer dizer “realidade”.

Repito: cada frase é um apelo suave de Clarice à nossa reflexão. Tão suave que, na maior parte das vezes, numa primeira leitura, muita coisa passa despercebida. Aqui, desafia-se medo do novo, do que ainda não se começou a fazer; o sentido do tempo e da mudança como sendo pendular; os limites que nos surgem com o desafio associado de os ultrapassarmos; e natureza da realidade.

 

(26/27)

(26) (…) preciso falar dessa nordestina senão sufoco. Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela. (…) (26/27) Escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de “força maior”, como se diz nos requerimentos oficiais, por “força de lei”.

Sim, minha força está na solidão. (…)

Uma explicação do porquê da escrita deste livro. E talvez um programa: contribuir para mudar o mundo…

 

(27)

Quero acrescentar, à guisa de informações sobre a jovem e sobre mim, que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.

 

(27)

Sou um homem que tem mais dinheiro que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo desonesto. E só minto na hora exacta da mentira. Mas quando escrevo não minto.

Outra vez o poeta fingidor? O que é irónico é que Clarice é mulher e escolheu deliberadamente um narrador masculino… então o que quererá dizer “não minto”? Que não é um Dan Brown ou a sua versão caseira Rodrigues dos Santos (que usam técnicas para “fisgar” o leitor, e pouco, muito pouco mais do que isso)?

http://arquivopessoa.net/textos/4234

 

(28)

De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza.

O que queria Clarice dizer: que a ficção cria a realidade, ou que a traduz, ou que a revela? Veja-se também como aqui talvez se exponha a intenção de conseguir alguma mudança no mundo.

 

(28)

(…) um dia, quem sabe, cantarei loas que não as dificuldades da nordestina.

Por enquanto quero andar nu ou em farrapos, quero experimentar pelo menos uma vez a falta de gosto que dizem ter a história. Comer a hóstia será sentir o insosso do mundo e banhar-se no não.

 

(29)

Ainda bem que o que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim. Tenho é que me copiar com uma delicadeza de borboleta branca.

Mais uma reflexão sobre a escrita: não inventamos nada, projetamo-nos naquilo que escrevemos – por isso, Vergílio Ferreira dizia que quem o queria conhecer devia era ler os romances, pois aí ele estava sem defesas.

 

(29)

Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.

Uma outra profissão de fé relativa à escrita. Como interpreto a última frase: eu desejava ter na memória o que eu poderia ter sido mas que, na realidade, não fui, logo não posso ter na memória porque não aconteceu.

 

(30)

Por isso não sei se minha história vai ser – ser o quê? Não sei de nada, ainda não me animei a escrevê-la. Terá acontecimentos? Terá. Mas quais? Também não sei. Não estou tentando criar em vós uma expetativa aflita e voraz: é que realmente não sei o que me espera, tenho um personagem buliçoso nas mãos e que me escapa a cada instante que rendo que eu o recupere…

Reflexão sobre a escrita.

 

(31)

(…) palavra tem que se parecer com a palavra, instrumento meu. Ou não sou um escritor? Na verdade sou mais ator porque, com apenas um modo de pontuar, faço malabarismos de entonação, obrigo o respirar alheio a me acompanhar o texto.

Nova reflexão sobre a escrita.

 

(32)

(Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro que me impressiona).

Este sussurro é o espírito que se evola a partir dos factos nus e crus, e que atravessa as palavras e as imagens. Mas também pode ser o rasto que os livros de que gosto me deixam, como a cabeleira iluminada de um cometa no céu estrelado.

 

(32)

(…) brutalidade essa que ela parecia provocar com sua cara de tola, rosto que pedia tapa),

Porquê? Porque é que a inocência sem beleza e a falta de inteligência sem maldade provocam a fúria dos outros? Vi isto tantas vezes entre alunos, e entre alunos e professores… e até, tenho vergonha em confessá-lo, entre mim e alunos (sempre consciente destes impulsos e, chocado, a tentar reprimi-los)…

 

(38)

Rua do Acre para morar, rua do Lavradio para trabalhar, cais do porto para ir espiar no domingo, um ou outro prolongado apito de navio cargueiro que não se sabe por que dava aperto no coração, um ou outro delicioso embora um pouco doloroso cantar de galo. Era do nunca que vinha o galo. Vinha do infinito até a sua cama, dando-lhe gratidão.

Linguagem tão evocativa da de Vergílio Ferreira. Um galo é referido abundantemente em Cântico Final que é de 1956, publicado em 1959. Ora, este livro de Clarice é de 1977 – tê-lo-á lido ela?

 

(39)

Teria ela a sensação de que vivia para nada? Nem posso saber, mas acho que não. Só uma vez se fez uma trágica pergunta: Quem sou eu? Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que vivo para nada. Sou gratuito e pago as contas de luz, gás e telefone.

Às vezes, sinto isto também. E luto contra. O voluntariado é o meu instrumento principal. Ajudar a Adriana também.

 

(41)

Vez por outra ia para a Zona Sul e ficava olhando as vitrines faiscantes de jóias e roupas acetinadas – só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro.

Tristeza e choro são movimentos em direção à consolação. Além disso, na alienação da realidade em que vivia dia após dia, o sofrimento podia dar-lhe talvez uma realidade mais real.

 

(42)

E tinha um luxo, além de uma vez por mês ir ao cinema: pintava de vermelho grosseiramente escarlate as unhas das mãos. Mas como as roia quase até o sabugo, o vermelho berrante era logo desgastado e via-se o sujo preto por baixo.

Clarice difere de Vergílio Ferreira por andar tanto à volta da fealdade.

 

(43)

Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns difíceis termos técnicos? Mas aí que está: esta história não tem nenhuma técnica, nem estilo, ela é ao deus-dará. Eu que também não marcharia por nada deste mundo com palavras brilhantes e falsas uma vida parca como a da datilógrafa. Durante o dia eu faço, como todos, gestos despercebidos por mim mesmo. Pois um dos gestos mais despercebidos é esta história de que não tenho culpa e que sai como sair.

A desculpar-se ou a justificar uma certa desorganização propositada dos elementos do romance?

 

(45)

(Quando penso que eu podia ter nascido ela – e por que não? – estremeço. E parece-me covarde fuga de eu não ser, sinto culpa como disse num dos títulos.)

Explicação para um dos títulos. Acho esta confissão comovente. Eu também senti medo perante a possibilidade de ser uma outra pessoa a viver em condições piores do que as minhas. E senti culpa por me acovardar.

 

(45)

Em todo caso o futuro parecia via a ser muito melhor. Pelos menos o futuro tinha a vantagem de não ser o presente. Sempre há um melhor para o ruim.

Pode esta afirmação constituir o fundamento de um otimismo desesperado?

 

(46)

Que se há de fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só.

Clarice de alguma forma repete esta ideia na entrevista de 1977.

 

(48)

O que se segue é apenas uma tentativa de reproduzir três páginas que escrevi e que a minha cozinheira, vendo-as soltas, jogou no lixo para o meu desespero – (cont.)

Muito interessante mais este recurso, a juntar ao da intercalação de “(explosão)”, para justificar a falta de brilho do encontro com aquele que virá a ser (48) (explosão) a primeira espécie de namorado de sua vida.

 

(49)

E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao recém-namorado: (…)

 

(52)

Quando Olímpico lhe dissera que terminaria deputado pelo Estado da Paraíba,. ela ficou boquiaberta e pensou: quando nos casarmos então serei uma deputada? Não queria, pois deputada parecia nome feio. (Como eu disse, essa não é uma história de pensamentos. Depois provavelmente voltarei para as inominadas sensações, até sensações de Deus. Mas a história de Macabéa tem que sair senão eu estouro.)

Clarice brinca um pouco connosco? Põe um pensamento e, depois, diz que história não é de pensamentos? Ora, não é é de outra coisa!

 

(53)

Ainda não sei, só sei que eram de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão.

Não, menti, agora vi tudo: ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si a dura semente do mal, gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais do que ela que não tinha anjo da guarda.

Segundo Clarice, podemos ser vítimas e não sermos inocentes, não só porque de algum modo acabamos por vezes a participar no mal que nos foi feito, mas porque lhe respondemos com maldade e rancor. Concordo.

 

(61)

– Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso?

– É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui importante...

– Pois fique sabendo que meu nome ainda será escrito nos jornais e sabido por todo o mundo.

Macabéa revela-se de uma inteligência lucidamente simples, muito mais brilhante que Olímpico que é absolutamente vulgar e pobre.

O que nos surpreende, pois Rodrigo cria-nos a expetativa do contrário, parecendo não perceber a pessoa que criou ou que existe à frente dos seus olhos (será porque Rodrigo está (72) apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela.?)

Na verdade, mais à frente, Rodrigo informa-nos que Macabéa (74/75) Tinha pensamentos gratuitos e soltos porque embora à toa possuía muita liberdade interior. Creio firmemente que esta liberdade é uma forma extrema de inteligência.

 

(72)

Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho.

Também tenho esta ideia… ilusória? Não sei mesmo. Mas se pensar que são as ações que me definem e revelam o que eu realmente sou (a existência precede a essência), então é mesmo ilusória – por exemplo, penso que sou corajoso e depois, no mundo e em ação, acobardo-me e vejo que não. Ah, mas talvez não seja o que eu penso de mim que é real, talvez seja apenas que, em solidão, pertenço-me mais a mim mesmo, sou menos influenciado, logo sou mais eu… ou não?

 

(77)

Eu uso essa palavra porque nunca tive medo de palavras. Tem gente que se assusta com o nome das coisas. Vocezinha tem medo de palavras, benzinho?

– Tenho, sim senhora.

– Então vou me cuidar para não escapulir nenhum palavrão,

Eu também tenho medo de palavras – é engraçado, não me recordo de Vergílio Ferreira referir este medo. Aqui Clarice parece ser mais consciente que Vergílio.

 

(85)

As coisas são sempre vésperas e se ela não morre agora está como nós na véspera de morrer, perdoai-me lembrar-vos porque quanto a mim não me perdôo a clarividência.

Para o caso de estarmos a assistir à morte de Macabéa de fora, Clarice “puxa-nos para dentro”, fazendo-nos sentir que estamos todos no mesmo barco.

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